RESENHA: CAPILÉ, André. Infenso. Juiz de Fora: Macondo Edições, 2025 (por Alexandre Nodari)



CAPILÉ, André. Infenso. Juiz de Fora: Macondo Edições, 2025.


Alexandre Nodari (UFSC) 



“Infenso”, nos informam os dicionários, é o adverso, contrário, inimigo, hostil, mas também o irritado, colérico, enraivecido. Poderíamos, assim, ler o título do mais novo livro de André Capilé, como a assunção, entre sério e jocosa, do lugar atribuído a ele (produtor de black noise) no cenário poético-cultural (regido pelo ruído branco). “Infenso”, no sentido de adversário, não deixa de remeter também aos nomes das nações do candomblé (jeje, por exemplo, significava originalmente estrangeiro, inimigo, em iorubá, assim como nagô tinha uma conotação pejorativa), cuja tecnologia ancestral aparece em “No breque” como um modo de resistência contra-histórica, uma refinada forma de fazer subir e, portanto, possibilitar descer, à nuvem cosmológica aquilo que o arquivo histórico tentou triturar: 


maneiras de contar fora da história 

na sucessão dos tempos, contratempos 


estreita interação
entre vivos e mortos
— íntegro liame
que aciona as vigas móveis 

do mundo natural 

entremeado às treliças 

enviesadas do sobrenatural — 



Assim, a operação de “jaguar a língua” (“instruir a marcha / natural do nado // jaguar a língua // como se fosse / sua mandíbula de corte”) anunciada em Azagaia, seu livro anterior, se prolonga aqui como uma “prosódia de combate”, que se manifesta de forma evidente em “Meninos do ninho: laboratório do extermínio”: 


enquanto os cães se lambem, ninguém lembra 

ou se pergunta: qual a diferença 


entre o laboratório do extermínio
(com seus chuveiros gotejando cianeto) 


e a colha de meninos pretos pra lavoura 

(mãos pequenas, narizes no algodão)? 


Mas creio que haja ainda mais aí: se, etimologicamente, infenso participa, pela raiz *fendō (bater), do mesmo campo semântico de ofender e defender, deles se diferencia. Ofender é bater contra, defender é fugir da batida, mas o infenso é outra coisa, é aquele que bate em direção à, que se dirige à batida. Infensa é a maré, em seu incessante chocar-se e corroer a terra, é o marulho, é a interminável e forçada travessia atlântica (tema constante na poesia de Capilé), que traz consigo uma outra língua, marulhenta, barulhenta, infensa, língua de batida: 


                                          — nós, heranças 

da travessia informando que a voz 

também dança, entre outros e novos balanços 

da língua coleante, a que me ginga & dribla. 



A “língua coleante” de Capilé (que o ginga e o dribla, importante dizer) não é só uma língua sinuosa, ainda que também o seja, afinal, se “a voz/ também dança”, é porque alguém, outra voz, contra-dança com ela num serpenteamento vertiginoso. Daí a sensação de barulheira constante nos seus poemas, uma dificuldade de individuar vozes que se atravessam, se sobrepõem, como se estivessem falando ao mesmo tempo, numa contradicção que abala qualquer pretensão de derivar uma autoridade última, a voz do autor, do poeta, em suma, de um sujeito. Se esse efeito é mais marcado nos poemas tendentes à forma dramática, como “vira-mar”, não deixa de aparecer em outros, como o nono de “no breque”, em que a coralidade da passagem do “eu” ao “nós” é armada por duas vozes que falam ao mesmo tempo, como a disposição gráfica da(s) segunda(s) estrofe põe a nu. Ou ainda, nos cantos ou expressões em quimbundo que irrompem, às vezes lado a lado com versos em português, e, de um modo geral, no jogo incessante e imprevisível, não padronizado, com a armação visual da dança das vozes nos poemas - com negritos, itálicos, versos alinhados à direita, centralizados. O ruído preto, a black noise de André Capilé não tem, portanto, nada a ver com a ausência de som, mas sim, como uma epígrafe de Amiri Baraka explicita, com a “Música Preta”, a “Arte Preta”, que remete ao “ancestral”, “à invocação de sua força” (“Já que até a música, ela mesma, era isso: um reflexo do ancestre”): há sempre mais de uma voz, há sempre uma voz anterior à origem da voz autoral. Mais do que um “falar em línguas”, Infenso é um “falar em vozes”: 


em todo canto a língua tropica, 


não educa agir pelo preciso, 

faz que acidenta e te engana. 


essa língua, como música, 

não se deixa pegar 


Uma língua infensa. Que nos dribla e nos ginga. 

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