ENSAIO: "'A herança': sangue, afeto e a economia do sagrado" - Zila Mamede por Marize Castro
A herança: sangue, afeto e a economia do sagrado
por Marize Castro
A herança, último livro da poeta Zila Mamede (1925-1985), reeditado pela Editora da UFRN em 2025, na Coleção Zila, Toda Poesia, é um livro sobre transmissão. Mas não apenas no sentido familiar ou biológico. O que está em jogo aqui é a economia simbólica do pertencimento: o que passa de um corpo a outro, de uma geração a outra, de uma linguagem a outra — e o que se perde no percurso.
A palavra “herança” carrega uma ambiguidade estrutural: é dádiva e é fardo. Em Zila Mamede, essa duplicidade não se resolve; ela se dramatiza. O livro se organiza em duas partes — “O sangue” e “O afeto” — como se o que herdamos fosse, simultaneamente, matéria e gesto, biologia e escolha, destino e elaboração.
A abertura do poema central já condensa essa tensão: “Sete irmãos, sete os herdeiros / e o pai, nove as janelas: a mãe / já não ocupa qualquer delas.” A herança começa sob o signo da ausência. A mãe, figura axial da transmissão, está excluída do espaço arquitetônico — as “janelas” são contadas, mas ela não está nelas. A herança, então, não é a posse de um bem; é a administração de uma falta.
Sangue: genealogia e culpa
Em “O sangue”, Zila constrói um inventário familiar que é também um exame moral. Cada irmão é convocado, interrogado, quase julgado. O tom é direto, às vezes severo, sempre comprometido com a ideia de responsabilidade.
Não se trata de nostalgia. O passado não é idealizado; ele é problematizado. A herança paterna — marcada por religiosidade, disciplina, língua, cultura livresca — aparece como algo que pode ser dilapidado. O irmão que troca “breviário” por “contas-correntes” encarna uma mutação histórica: a passagem do mundo simbólico para o mundo mercantil.
Zila percebe que a modernização não é neutra. A entrada do léxico econômico — “cifras”, “varejo”, “contas-correntes” — corrói a espessura do sagrado. Não há moralismo simplista aqui. A tradição religiosa e humanista é substituída por uma racionalidade utilitária. O que se perde? Não apenas a fé, mas uma forma de densidade interior.
Ao mesmo tempo, a poeta não romantiza o passado religioso. Há referências à clausura, à repressão, à “pedra-mó” que empareda. A herança é também aquilo que limita, que castra, que impõe uma identidade antes que o sujeito a escolha. Herdar é receber um script. O drama é saber se ele será repetido ou transformado.
Zila opera num registro que combina intimidade e análise histórica. Cada irmão representa uma resposta distinta à modernidade: o que se dispersa no consumo, o que se exila na técnica, o que se perde na compulsão, o que tenta resistir. A família funciona como microcosmo de um país em transição — entre o rural e o urbano, o religioso e o secular, o artesanal e o industrial.
A linguagem acompanha essa tensão. O poema oscila entre o vocabulário bíblico e o econômico, entre o tom litúrgico e a ironia. Essa oscilação não é decorativa: ela encena a própria crise da herança.
Um dos movimentos mais complexos do livro é a centralidade da figura feminina na cadeia da herança. A mãe, embora ausente na imagem inicial, estrutura todo o livro. A herança não é apenas paterna; é uterina, doméstica, cotidiana.
Quando Zila se dirige à irmã (“E tu menina / de riso claro”), a linguagem se adensa numa mistura de ternura e exigência. A herança aqui é alegria, fertilidade, continuidade. Mas também é sacrifício. A mulher é apresentada como aquela que “re-fia”, que “re-cobre”, que “amamenta”, que sustenta o mundo em silêncio.
O poema não idealiza esse papel. Ele expõe sua ambiguidade: a mulher herda a capacidade de gerar, mas também a obrigação de sustentar. A herança feminina é uma mistura de potência e carga.
Há um momento particularmente incisivo quando a voz pergunta: “E tu, mulher, / que bens herdaste?” A resposta é uma enumeração de virtudes tradicionais — fertilidade, ardor, rosário — seguida de uma perda (“uma das contas / caiu do liame”). A imagem da conta que se solta do rosário condensa o trauma: algo na cadeia simbólica se rompe. A herança nunca é inteira.
O livro se volta explicitamente para a cultura do consumo. A linguagem incorpora termos como “acionistas”, “videojogos”, “economês”, “congelados”, “enlatados”. A herança agora é atravessada pela lógica industrial e midiática.
Zila percebe que o consumo cria uma nova forma de filiação: não mais entre pais e filhos, mas entre sujeitos e mercadorias. O vínculo passa a ser mediado por objetos. O “lar-caminhão” substitui a casa; o movimento constante substitui o enraizamento.
Mas a crítica não é panfletária. O que está em jogo é a diluição da interioridade. O sujeito que se perde no nomadismo econômico troca um “mundo denso, profundo” por um império abstrato. A herança espiritual se transforma em capital simbólico sem lastro.
O que impressiona é a atualidade dessa percepção. O livro foi publicado originalmente em 1984, mas sua leitura do consumismo e da tecnocracia antecipa diagnósticos que se tornariam mais evidentes décadas depois
Em “O afeto”, Zila desloca o eixo do sangue para a escolha. Aqui, a herança é intelectual, literária, espiritual. Os retratos de João Cabral, Drummond, Oswaldo Lamartine, João Bento, Chico Doido e Hermelinda compõem uma galeria de figuras que formaram a poeta.
Esses retratos não são hagiografias. São estudos de caráter. No poema dedicado a João Cabral, por exemplo, a linguagem disseca o gesto, o medo, a disciplina, a técnica. O poeta é apresentado como alguém dividido entre ascese e desejo, entre rigor e vulnerabilidade. A herança aqui é ética: compromisso com a palavra.
No retrato de Drummond, a crítica se volta para a banalização da vida pelo consumo. A ironia atravessa o poema, expondo a invasão do mercado na intimidade. A herança modernista — lucidez, humor, consciência histórica — é mobilizada para pensar a alienação contemporânea.
Oswaldo Lamartine aparece como o artesão da palavra, aquele que “vota na palavra feita”. A imagem é política e estética: escolher a palavra é um ato de soberania. Herdar, nesse caso, é assumir uma disciplina.
Já em “João Bento” e “Chico Doido”, Zila se volta para figuras populares, periféricas. A herança não é apenas erudita; é também oral, sertaneja, religiosa. O sagrado se manifesta tanto na liturgia quanto na loucura do mendigo devoto. A poeta reconhece que sua formação é híbrida: biblioteca e feira, altar e rua.
O último poema, “Hermelinda no espelho”, introduz uma dimensão inquietante: o corpo feminino submetido ao regime cosmético. O rosto que “exorciza o tempo” por meio de cremes e loções é uma imagem da tentativa de suspender a mortalidade. A pergunta final — “Em que pastos morrerei?” — rompe a superfície do consumo e reinstala a finitude.
Aqui, a herança é a própria condição mortal. Nenhum cosmético a cancela.
Forma e tensão
Formalmente, A herança alterna versos curtos, enumerações, interpelações diretas. A repetição de “E tu” funciona como convocação ética. Cada personagem é chamado a responder por sua herança.
A linguagem é concreta, muitas vezes prosaica, mas atravessada por imagens súbitas. Não há excesso ornamental. O poema se constrói como discurso — quase como uma longa carta familiar, atravessada por reflexão cultural.
Esse hibridismo é uma das forças do livro. Zila escreve a partir de um lugar situado — Nordeste, família numerosa, tradição católica — mas sua análise ultrapassa o local. O que está em jogo é a condição moderna de herdar sem saber o que fazer com o que se recebe.
Ao final, a pergunta que ecoa é: o que fazer com a herança? Repeti-la? Traí-la? Transformá-la?
Zila sugere que herdar é uma tarefa ativa. Não basta receber; é preciso interpretar. A herança não é estática. Ela exige escolha, discernimento, reinvenção.
A poeta se insere nessa cadeia como última testamenteira. Ao escrever, ela organiza a memória, distribui bens simbólicos, nomeia falhas, reconhece forças. O livro é, ele próprio, um ato de transmissão.
Publicada originalmente no ano anterior à sua morte, a obra ganha uma camada suplementar de sentido: é um testamento. Não no sentido jurídico, mas no sentido ético. A herança que Zila entrega não é apenas familiar; é literária. É a convicção de que a palavra ainda pode organizar o caos do mundo.
A herança é um livro vigilante. Ele observa a passagem do tempo, a erosão dos valores, a sedução do mercado, a fragilidade dos vínculos. Mas não se entrega ao desespero.
Há, no fundo, uma confiança na possibilidade de resistência. Essa resistência não é grandiosa; é cotidiana. Está no cuidado com a palavra, na atenção ao outro, na consciência crítica.
A herança, para Zila Mamede, não é um peso a ser descartado nem um tesouro a ser idolatrado. É um campo de tensão. Entre sangue e afeto, entre tradição e ruptura, entre sagrado e consumo, o sujeito deve escolher.
O livro nos lembra que toda herança é ambígua. O que recebemos pode nos libertar ou nos aprisionar.

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