RESENHA: VILLA, Dirceu. Ciência nova. São Paulo: Laranja Original, 2023 (por Diogo Cardoso)
VILLA, Dirceu. Ciência nova. São Paulo: Laranja Original, 2023
Diogo Cardoso
Uma ciência poética
Scienza Nuova: eis o cartão de embarque para adentrar o mais recente livro do poeta Dirceu Villa, Ciência nova (Laranja Original, 2022), cujo título ecoa Giambattista Vico. Se utilizo o termo eco, é menos como mera reprodução ou “aplicação” teórica do que uma ressonância de pensamentos que, não obstante compartilharem atualidades distintas, não deixam de se revelarem espíritos contemporâneos. Basta um mínimo contato com os livros anteriores de Villa, de Icterofagia a Transformador, passando ainda por Speechless tribes e Couraça: obras cuja linguagem atua de forma demoníaca, uma vez que age diretamente na estrutura. E também demoníaca porque entendo que quando a linguagem se restringe apenas a um campo discursivo, ela é mera manipulação – a linguagem, aí, é meio. No entanto, quando ela é subvertida internamente em sua sintaxe – e claro, não sem descuidar da devida e exigida discrição – ela é um pavio que avança silenciosamente; é o justo contrário da palavra empenhada, negociante, cuja intenção mora em seu fim. Mas, se no silêncio sinuoso de uma sintaxe quebrada, que guarda em si um sentido intrínseco a seu movimento, uma língua é fundada dentro da própria língua, a linguagem tece, por sua vez, uma geografia sismógrafa no corpo do poema. Daí seu caráter diabólico.
Como Vico, Dirceu Villa estabelece em sua Ciência nova a síntese histórico-temporal de uma época turbulenta cujos embates políticos e sociais colocam toda uma ideia de humanidade e civilização em xeque. Contudo, o poeta explora esse mundo – ou essa noite, como diria Pizarnik – de maneira prismática, em que os poemas atuam como partículas elementares de um mundo em ruínas, ao mesmo tempo que o fio da linguagem se esforça em não perder de vista a totalidade deste mesmo mundo em seus diferentes estilhaços de realidades e temporalidades. Toda essa realidade sismográfica é captada pelo poeta através da correspondência entre linguagem e forma – um topógrafo do caos.
Se há de fato nesse conjunto de poemas uma síntese, ainda que prismática, jamais será no sentido de uma busca que tenta abarcar a totalidade de um “espírito da época”, desembocando em uma reflexão estéril e fixa: justamente por ser sismógrafa, essa busca se dá a partir de uma linguagem movente e movediça, babélica, política, afetiva, amorosa, lírica, fabular e até mesmo mitológica, alcançando a síntese de todas essas matérias – tal como Vico – através do conhecimento pelo abismo: em outras palavras, o conhecimento poético.
Ainda que o poeta – e, quiçá, a própria poesia – talvez continue confinado em sua “véspera de não”, os poemas de Ciência nova são um fio condutor que abre e cria a possibilidade de sonharmos novas realidades e novos futuros, abrindo nossa imaginação ao rio caudaloso da poesia e da outra vida.

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