FICÇÃO: "Chova para mim", por Curtis Eggleston (tradução de Zyom Rosa)

 CURTIS EGGLESTON (Estados Unidos, 1994)




Curtis Eggleston é um prosador norte-americano, autor dos romances Hollow Nacelle (2021) e Opaquely A (2024), ambos lançados pela editora Expat Press. O autor vive e trabalha em São Paulo. Essa tradução de Zyom Rosa, assim como o original, foram publicados no segundo número impresso da revista Peixe-Boi em 2024.


CHOVA PARA MIM


Preciso ver, mas olho para a chuva. Ela escorre e se infiltra, em busca do centro da terra. Facilmente imagino mais no alto, mas não consigo traçar a queda. Se você procura uma nova dimensão, tráfego oposto não é bom presságio. Estou desesperado por dinheiro, e preciso pensar. Para pensar, preciso ver, mas olho para a chuva. Não faz muito tempo que aprendi a rezar. A diferença prévia estava no querer. O ganho que preciso diminui a dor. Estou desesperado por dinheiro, e preciso pensar. Ao lado da minha vista, a chuva dirige-se a todos. Olhe para dentro de si para saber como irá morrer. A chuva derrama indiferença. Não tenho seguro de saúde, mas tenho raios na espinha dorsal. Na primeira noite em que vi Fé, perdi minha virgindade. Quatorze e pronto e com medo das drogas. Questionei o pó — Fé, Kino chamou, é como êxtase. Hannah me puxou para seu quarto e o esfregou em minhas gengivas. Na semana seguinte na escola, fui recebido com inveja. Onze anos depois, estou desesperado por dinheiro. Minha mãe era inteligente, enfermeira em oncologia. Quando meu pai encontrou Fé, fez questão de me renegar. O raio que abate meu tempo está além de mim. Não consigo ver e estou desesperado por dinheiro. Quando eu tinha 18, visitei Mamãe. Ela perguntou se eu conhecia um garoto chamado Kino. Mei disse que me pagaria se eu escrevesse um filme para ela. Preciso pensar, mas olho para a chuva. Durante sete anos, fui viciado em Fé. Eu a comi, depois cheirei, até encontrar veias. O amor da minha vida disse que foi como um sonho. Ela não pôde ver a convulsão, e saiu a dirigir para casa. Quando um raio vem, não consigo respirar. Ele traça minha espinha e apaga meu nome. O filme está na minha cabeça, só preciso escrevê-lo. Tenho vergonha da soma, Mei disse que pagaria. Estou desesperado por dinheiro, eu só quero ver. Em vez disso, olho para cima, e espero pelo onde. Ao hospital, Mamãe disse que Kino veio. Ele tinha quase a sua idade, pensei que talvez o conhecesse. Ele disse que uma dor lívida atingiu toda a sua espinha, seus órgãos presos cerrando respirações como punhos. A ideia do filme é a escolha do tempo. Uma vez escrito, eu não serei meu. Não me servem de nada o dinheiro, ou a coragem, ou o tempo; em vez disso, olho para cima, e encorajo a luz.


[tradução de Zyom Rosa]


*


CURTIS EGGLESTON


RAIN TO ME (Curtis Eggleston)


I need to see, but I look up to the rain. It tunnels down, foraging for the center of the earth. I easily picture more above, but I cannot envision the fall. If you seek a new plane, opposite traffic does not bode well. I am desperate for money, and I need to think. To think, I need to see, but I look up to the rain. It has not been long since I learned to pray. The prior difference lay in wanting. The gain I need diminishes pain. I am desperate for money, and I need to think. Beside my sight, the rain addresses all. Look inside yourself to know how you’ll die. The rain pours indifference. I have no health insurance, but I’ve lightning up my spine. The first night I saw Faith, I lost my virginity. Fourteen and ready and afraid of the drugs. I questioned the powder—Faith, Kino named, it’s like ecstasy. Hannah pulled me to her room and rubbed it in my gums. The next week at school, I was met with jealousy. Eleven years later, I am desperate for money. My mother was smart, she nursed in oncology. When my father found Faith he was sure to disown me. The lightning abating my time is beyond me. I cannot see and I am desperate for money. When I was 18, I visited Mom. She asked me if I knew a boy named Kino. Mei said she’d pay if I wrote her a film. I need to think, but I look up to the rain. For seven gone years, I was addicted to Faith. I ate it, then snorted, before I found veins. The love of my life said it felt like a dream. She could not see seizing, and left to drive home. When lightning comes, I cannot breathe. It traces my spine and erases my name. The film’s in my head, I just need it down. I’m ashamed of the sum, Mei said she would pay. I’m desperate for money, I just want to see. Instead, I look up, and hope to where from. To the hospital, Mom said Kino came. He was nearly your age, I thought you might know him. He said livid pain struck all up his spine, his organs stuck clenching breaths into fists. The idea for the film is on choice length of time. Once written down, I won’t be my own. No good use for money, or courage, or time, instead I look up, and encourage the light.

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