FICÇÃO: "Cinco esquinas", por João Paulo Campos

 JOÃO PAULO CAMPOS : CINCO ESQUINAS





Rua Augusta às quatro da manhã


Tomou um beijo e dobrou a esquina. Trezentos passos no escuro vazio. De repente luzes neon disputam o espaço para baixo – se aproxima. Aparecem pessoas. Observa andando: uma pequena multidão de putas e homens vestidos de verde Palmeiras. Mira a esquerda e se assusta com a hinchada que veio de fora é do Uruguai. Mais vinte ou trinta ou oitenta passos no escuro e bomba. Teatro de estabelecimentos: Andrômeda, Blitz, Polícia Civil e Bruno Covas. Deu um grito e começou a miar – sozinho. Escuridão novamente? Não, bar de sinuca – um desvio. Com medo de overdose atravessa a rua. Topa com empresas em fuga. Compra uma cerveja e se joga na rua. Rasgando a noite aparece a Blazer: vai morrer playboy filho da puta.



Major Diogo no escuro


Dia triste, noite tensa. Chuta a porta e abre a janela. Mire veja: gente na esquina. Desceu do edifício e ganhou a rua: beco escuro? Confronto: ladrão safado cinco mão vagabundo. O ébrio da rua diz e faz: soco na cara ou peito ou no braço. Pede desculpas e beija o rosto do amigo – povo da rua. Trinta passos tortos – no breu, dá um tiro. Vulto que anda se arrasta indignado. Não tem bandido nessa cidade de merda? Pragueja, mas está apaixonado por São Paulo – perdeu os sentidos. Encosta no Bar do Joel que surge no escuro. Giroflex da polícia com led vermelho: Bo-bo-boa noite oficial. Ele gagueja. Pois não? É bom dia e some daqui. Corta para a Santo Antônio e fim de conversa.



Roosevelt às duas


Olhou no fundo de seus olhos. Bate na minha cara, homem morto desgraçado. Partiu em disparada respirando a noite – resto de fôlego e cachaça na boca. O trottoir faz a ponte: na Consolação ganha a praça do breu. Surge aparece: bichas, bichos, punks, querubins. Lindas travestis batem boca com tralhas. Quer aventura, mas não sabe viver. Bandido sem arma é igual todo mundo. Tropeça com o rosto no chão. Sangra sangue vermelho pesado. Chão de cimento e um merda ferrado. Passa rasgando um vulto de moto. Quer ver eu socar minha caceta nessa boca? Matrona no escuro rouba a palavra. Peço licença, com todo respeito, para morrer em você. O que? Não gostou da resposta e matou o sujeito.



Charlie Parker na esquina


Deu fuga pro pico fugindo da tranca. Chegou enfadado de tanto tentar. Um desvio da treta e cantou Charlie Parker: espantar o demônio de São Paulo no ar. I love you tu beautiful e foda-se o bar. Faz tudo safado não sabe amar. Mas conversa com os outros até se danar. De repente aparece um mendigo agressivo. Que chama e chama de cuzão seu olhar. Com desejo de morte lhe dirige a palavra: somos todos irmãos perante o lugar. Mas fez e fazendo gritou para o nada: Though someone else may be, nearer your heart?



Hotel Itamar


São Paulo toma a forma de placas: proibido comer o cu da galera. Putas ameaçam boquetes no Hotel Itamar. O homem recua sem um puto no bolso. Empreendimentos à solta na cidade do fel. Obrigado senhora, eu só quero olhar. Demétrio lê: prezados senhores, sujeito a reboque dia, noite e o resto também. A porta grande fechada se cala com dentes de minério - granadas e pistolas fogem da luz falando em línguas. No drible da rua, a noite diz: você vai, mas você volta. Com sorte, o verme goza. Gosta de brincar? Diz que não e ganha a Augusta. Prefere brincar com a morte do que viver para a gente paulistana - mal agradecida. Verdade louca: o perigo do amor se tornar assassínio no centro baixo. Ninguém gosta de ninguém, mas todos voltam a Sampa.



Rua do Triunfo 


Se levantou do chão. Nesse muro mijaram cinco. 




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