FICÇÃO: "Livros nas mãos de amigos", por Ismar Tirelli Neto

 


Imagem: Paul Cadmus, "Jerry (Nude Reclining with Ulysses)", 1931


LIVROS NAS MÃOS DE AMIGOS



Ismar Tirelli Neto




A mais alta feita daquela íntima reunião de amigos foi quando Demétrio, Décio, Dioclécio jogou sobre a mesa o livro que andava a ler naquelas alturas. Um compêndio de polêmicas em torno do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado pela primeira vez no terceiro número da Revista de Antropofagia, e posteriormente incorporado ao primeiro livro do poeta, Alguma Poesia. O próprio autor enfeixara, em 1967 ou 1968, uma série de artigos historiando a recepção do poema. O livro passou pelas minhas mãos, e como haviam sido muitos os copos de uísque que me tinham também passado pelas mãos ao longo daquela noite, pouco me ficou além da capa, do subtítulo – Biografia de um poema –, e dessa impressão de ruído anterior ao verbo: encarniçados debates travados quando do primeiro vir-a-lume do poema no tocante ao emprego do verbo “ter” em vez do mais fidalgo “haver”.



         Anos depois, sorrio ao ver Yuri caminhando em minha direção, em frente às escadarias do Teatro Municipal. Vinha sem a menor pressa e levava nas mãos um insólito volume cujo título não consigo muito bem precisar; penso que se chamava O Café Na História, no Folclore e nas Belas Artes, ou O Café e o Estado de São Paulo. Perguntei-lhe por que diabos ele andava às voltas com um calhamaço daqueles, ao que ele respondeu, divertido, sem nenhuma escondedura, relatasse sucessos de um Carnaval passado, que estava “estudando o Brasil”. Àquela altura, o Brasil não me parecia exatamente precisado de olhar mais aprofundado, nem mais nem menos precisado do que sempre estivera. Pode-se mesmo dizer que naquela época as coisas corriam bem no Brasil. Yuri voltava para casa em torno das quatro, a fantasia de sheik esfrangalhada de cima a baixo.




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