RESENHA: DAL MOLIN, Gabrielle. Veias. Natal: Sol Negro, 2025 (por Marize Castro)

 DAL MOLIN, Gabrielle. Veias. Natal: Sol Negro, 2025



O corpo como cartografia


Marize Castro


Toda escrita é um gesto de anatomia: abre-se o corpo, expõem-se veias, observa-se o fluxo até que a linguagem recolha o sangue e o devolva como signo. Nos poemas de Veias, livro publicado em 2025 pela editora Sol Negro, Gabrielle Dal Molin pratica essa liturgia com a precisão de quem sabe que olhar de frente o pulsar — mesmo quando ele oscila entre a ternura e a ferrugem — é o único caminho para não sucumbir ao torpor do cotidiano.

Respirar, aqui, não é metáfora suave; mas, sim, disciplina de sobrevivência. “Saber respirar / já me livrará dos duelos / contra mim mesma”, escreve a autora. Há, então, uma ética do fôlego: recusar a guerra interior, desarmar a culpa, sustentar a própria presença como ato político mínimo — e máximo. A poeta faz da experiência íntima um sismógrafo do mundo: cada contração invisível do peito reverbera nos desastres climáticos, nas abelhas em extinção, nos ruídos de hélices eólicas que “tocam a música insossa do progresso”.

Esses versos percorrem longitudes geográficas (sertão, Via Costeira, BR-226, Jardim do Seridó) e longitudes afetivas (infância neon, avó, bisavó, mulheres que se beijam no centro da cidade). O resultado é um atlas fragmentário onde cada topografia brilha pela fricção entre sedimento e memória, entre Eros e ruína. Florestas visionárias confrontam apartamentos engordurados de café; marés atlânticas invadem o lençol; o vento tanto devasta mudas de coqueiro quanto salva uma manhã de domingo com canto de pássaros. O território físico é, simultaneamente, mapa emocional — e vice-versa.

Susan Sontag, em Contra a Interpretação, alerta para o perigo da hermenêutica que corrompe o êxtase estético; propõe, em vez disso, “uma erótica da arte”. Dal Molin parece ouvir esse chamado: não submete o poema à dissecação acadêmica, mas arma seus versos como câmeras abertas ao embate entre percepção e carne. O erotismo aqui não é ornamento: é princípio epistemológico. Quer decifrar o mundo? Toque-o, lamba-o, deixe-o lamber você de volta.

Contudo, há também um constante assomo de morte. “Talvez a última coisa que você veja antes de morrer / seja o cabelo grisalho do moço da poltrona da frente”. A poeta não estetiza a finitude; antes, inventaria seus objetos prosaicos — sacos de vômito, copos descartáveis, luzes de avião — para mostrar que o ocaso raramente tem grandeza épica. Apropria-se da mundanidade para fraturar qualquer ilusão de transcendência fácil.

Se há uma linhagem a que esses poemas pertencem, ela inclui Clarice Lispector (a claridade que fere), Zila Mamede e Virginia Woolf (o pacto aquático), e a própria Sontag (geradora do olhar crítico sensorial). Ainda assim, Dal Molin resiste à genealogia: retorce-a, injeta-lhe ironia (“nunca saberei qual o gosto daquele café / que derrubei por inteiro no fogão”) e, sobretudo, convoca o humor como válvula contra o pânico ontológico. O riso torna-se, aqui, dispositivo de lucidez.

Não nos enganemos: Veias não oferece redenção. A poeta não sutura definitivamente essas artérias expostas; prefere deixá-las abertas ao ar, à possível infecção, ao eventual milagre da cicatrização. O livro pede leitores dispostos a encostar o dedo na ferida, a sangrar junto, a reconhecer que certas dores exigem ser ouvidas antes de qualquer cura. Como no poema “escutando a queda”, é preciso confundir asfalto com ideia para, só então, “ouvir o que eu tenho a dizer”.

Li as páginas de Veias como quem passeia por um salão iluminado por lâmpadas intermitentes: cada estrofe acende-se num clarão, depois mergulha outra vez na penumbra, obrigando o olhar a readaptar-se sem cessar. E é nesse vaivém de luz que a autora encontra seu tom mais próprio: um equilíbrio instável entre a contemplação lírica e a crítica impiedosa das estruturas que nos habitam (família, gênero, trabalho, cidade, fé). Daí que o livro não se encerre: suas veias continuam latejando no pulso do(a) leitor(a), convocando- o(a) a também respirar, a também rir, a também tropeçar nas próprias fendas.

Em tempos de discursos encapsulados e emoções pasteurizadas, a poesia de Gabrielle Dal Molin reivindica a precariedade do corpo como forma soberana de conhecimento. Ler Veias é aceitar o convite para caminhar à beira do abismo — e piscar de volta.


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