RESENHA: FERREIRA, Maria do Carmo. Cave Carmen: Poesia Reunida. Goiânia: Martelo, 2024 (por Ricardo Domeneck)

 CUIDADO: POETA -- acerca de Cave Carmen, primeiro volume da Poesia Reunida de Maria do Carmo Ferreira

por Ricardo Domeneck


(Nota: pede-se que o leitor brasileiro considere que o texto foi escrito para circular em Portugal, publicado originalmente na revista Colóquio, para circular ao tempo da exposição Complexo Brasil, da Fundação Calouste Gulbenkian)





Este quarto de século nos deu alguns acontecimentos literários, entre estreias e redescobertas. Nossa intenção aqui é chamar a atenção da comunidade lusófona para o trabalho de Maria do Carmo Ferreira, nascida em 1938 em Cataguases, Minas Gerais. Conhecida por pouquíssimos leitores através de poemas em publicações como Invenção e Suplemento Literário de Minas Gerais, a poeta se recusava a reunir em livro sua produção. Graças aos esforços de Silvana Guimarães e Fabrício Marques, os organizadores dos três volumes de sua Poesia Reunida, os leitores podem hoje apreciar o trabalho dessa mulher. A publicação é, na opinião deste crítico, um acontecimento. Pretendemos nos debruçar aqui sobre o primeiro volume, Cave Carmen. Já no título temos um exemplo do humor fino e conciso da poeta. Usando o conhecido "cave canem" latino, "cuidado com o cão", ela o transforma em "cuidado com o poema", ao mesmo tempo que alerta contra si mesma, conhecida por Carminha pelos amigos. O poema de abertura, que dá título ao livro, traz em si muitas das suas características marcantes: a investigação do eu-lírico, linguagem densa, multilinguismo experimental de forte concentração sonora, o cabral-mondrianismo estrutural das estrofes, neologismos, composição de palavras-valise: "se mula tácita impromptu / censuras nassau-sonantes / cam & com páris granted?"


Há também alguns recursos reminiscentes das neovanguardas dos anos 1950, em especial do grupo Noigandres, com o uso de sinais gráficos para explicitar jogos sonoros internos das palavras, com uso eficiente de todos os recursos da linguagem para maior concentração semântica. Em geral, no entanto, ela recorre poucas vezes a essa estratégia, e há mais casos de fusão completa de vocábulos, como em "arregarçantes", "urticariátide" ou "trivialgo". O livro, porém, está distante de ser composto apenas por linguagem cifrada, experimental e difícil. Como disse Guilherme Gontijo Flores à revista Piauí: “Ela consegue ir de acontecimentos líricos profundos e dolorosos a um movimento de humor e ironia refinados, passando pelo experimentalismo puro e simples, algo tecnicamente incrível”. É esse virtuosismo, como em outra mineira redescoberta, Maria Lúcia Alvim, o que mais causa vertigem crítica em sua poesia, de catalogação difícil. Poesia na qual o questionamento do eu passa pelo estilhaçamento do estilo. Ela se permite dos metros populares à condensação visual, e tudo exalado em linguagem. 


Há poemas que são destilações perfeitas dessas qualidades. "Autorretrato" é brutal em sua autoderrisão, antídoto às veleidades megalomaníacas dos artistas: “Nasci no rame-rame das abóboras. / Meu plano é horizontal. Vivo de cócoras. // Se me ergo, me espatifo. A gravidade / colou meu ser ao chão: cresço à vontade.” Nos limites, a liberdade. Em “Cognominato”, ela parte das inúmeras referências etimológicas e culturais da palavra carmen e do nome Carmem para criar exuberante retrato caleidoscópico de si, e que é pura linguagem. Do erudito ao popular, do mundo cultural ao natural, Maria do Carmo Ferreira emerge desse livro uma das grandes poetas vivas da língua.


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