RESENHA: GONTIJO FLORES, Guilherme. Panapaná. Belo Horizonte: Ars et Vita, 2025 (por Cristiano de Sales)
GONTIJO FLORES, Guilherme. Panapaná. Belo Horizonte: Ars et Vita, 2025.
Cristiano de Sales
Não como quem desce um fosso ou poço ou fenda em busca de carbono ou sal, minério ou magma, mas como o que escorre entre as pedras incorporando sais, calcinando no frio e no breu formas de cristalizar o inverso do sentido, emersão em seu revés. Vida que se filtra em outra matéria. Não purifica, microorganisma-se para outros saltos na linguagem. O sujeito que vem à superfície depois do mergulho não volta, perfura outras formas de homenagear, gritar, singrar seus amores maiores e menores. Assim chega Panapaná, de Guilherme Gontijo Flores. O lirismo se faz humus e veia na f(r)esta da palavra-larva, traça o anticorte na elasticidade do ritmo.
Panapaná escava uma virada na trajetória não apenas do poeta, mas, sobretudo, do poema, lugar de vida e forma. Crava o dente no coração da língua para refazer-se nos seus. Passada mais de uma década da estreia de Guilherme em poesia – trajetória que tem revelado um escritor aplicado na forma, que traça o verso ao rés da matéria, no risco da música das coisas, que reivindica e reinventa o mito – eis que surge um livro onde a comunicação impõe menos obstáculos, salvo em sua terceira parte, a mais severamente poética, chamada Monami, posto que dali rompe a incendiada lava e larva dessa revoada de borboletas (panapaná em tupi).
Antes de escrever duas linhas sobre Monami, que está dedicada às crianças, seus filhos, é preciso registrar que o ritmo do livro, em versos longos, está sugerido na segunda parte, Muxima, em que se sonda o coração. A cadência desse coração descompassadamente ritmado faz lembrar o melhor do cancioneiro moderno, digno de um Caetano Veloso (que, sempre podendo cortar na redondilha, acaba esticando o verso para extrair de um dodecassílabo, por exemplo, uma sutileza maior da língua), porém, irregular.
Explico-me. Não cortar o verso quando as tônicas já marcaram pé revela não apenas um artista versado em longas e breves (Gontijo é tradutor de clássicos), mas também que no anticorte chega-se a outros fôlegos, talvez mais sincopados. Tomemos um verso: “a carnação das coisas várias ao redor da nossa vida”. Dezesseis sílabas que podem ser lidas como quatro quadras por conta das tônicas que dão a regularidade dentro da irregularidade. Se é de coração que se trata, notamos no verso-corpo-bárbaro uma batida regular. Isso pode conotar que em meio à deformidade dos corpos que se buscam, se assanham, se penetram e tremem até a síncope... há um pulso desencontrado que busca conformar a vida, ao menos fisiologicamente, por meio de uma batida firme e regular. Isso parece aumentar a intensidade não apenas do verso, mas dos poemas que performam muito erotismo. É a sensualidade da língua em fricção ao rés do corpo. A vida fisgada no tempo e na carne de quem se ama também em fúria.
Mas o livro vai da superfície ao fundo para depois emergir outro. A descida se dá como “essa queda que vai do nada ao nada”. Este verso parece trazer no ritmo um rito. Não é difícil imaginar-ouvir tambores marcando o canto. Tambores, quem sabe, d’Angola. O nome da série é Monami, palavra quimbundo para “minha criança”. Então o rito de descida é para a infância, dos seus, de si e do poema. Não origem, mas outro ponto de partida. Não o magma, e sim o fóssil. Vestígio do que não é mais e ao mesmo tempo rastro de um devir tensionados no mesmo organismo-fóssil-palavra. Entretanto, para operar com esse fóssil que parece estar muito mais fundo na superfície do sentido é preciso descer à ruína que está entre o nada e o nada.
Da ruína, e daquilo que a terra já calcinou, vem o líquen dos poemas que Guilherme Gontijo Flores compôs para esse Panapaná. Uma substância que pelas veias do poema vai dar de comer-viver à incessante carne da “Primavera”. Primavera que não apenas encerra e faz ressurgir o livro, mas que também parece marcar uma diferente deriva desse que é um dos grandes poetas surgidos no primeiro quarto de século da nossa cena.

Comentários
Postar um comentário