RESENHA: MANTOVANI, Rafael. Teto baixo. São Paulo: Urutau, 2025 (por Mateus Melo)
Acerca de Teto baixo, de Rafael Mantovani
Mateus Melo
“(...) que existe um erro óbvio nessa conta toda, uma cena faltando no roteiro, a peça esquecida dentro da caixa, o mapa astral deslocado (...)”
— Rafael Mantovani, do poema agora também posso me gabar.
Teto baixo é uma longa-metragem na forma de poemário, constituído por trinta e cinco poemas ao longo de noventa e três páginas, e um poeta solitário que nos guia, cena a cena, pela sua vivência como um homem que deseja homens. Os poemas são descritivos e estamos com o autor em todos os momentos, vendo-o e vendo-nos em seu lugar (“vou na cidade hoje pra / fingir que te procuro / porque hoje é a melhor coisa que encontrei pra fazer” do poema geralmente).
O livro começa com um subtítulo peculiar, a esperança é a Sigourney Weaver com uma metralhadora, como se nos avisasse para ir com cautela: o Alien anda à solta e a Sigourney Weaver está armada — armem-se também! No momento seguinte, desampara-nos com a sua linguagem nua e crua, confessional, que respeita os momentos banais da vida e das relações humanas: das conversas com os amigos; das ruminações enquanto o amante dorme ao nosso lado; das noites em aplicativo de date (título de um poema). Escreve consciente da sua própria vulnerabilidade.
Além disso, tudo é circunstancial na poesia de Mantovani, tudo é geralmente ou provavelmente (títulos de poemas presentes no livro) ou “antigamente claramente havia tempo” (do poema fungos). Circunstancialidade essa que apenas poderia existir e convergir nele, talvez por ter vivido em lugares tão diferentes (Berlim, Porto e São Paulo); talvez por ser uma pessoa homoafetiva; talvez por ter vivido em situação de imigração; talvez por ser alguém que precisa exprimir os seus sentimentos por palavras, mas as palavras nunca chegarem; talvez por tantos motivos que é impossibilitante tentar definir, num mundo em que políticos corruptos ocupam mais versos que as juras de amor ou corpos dos amantes.
“escrevo estas coisas quando estou cansado e queria usar meu cansaço pra alguma coisa»
— Rafael Mantovani, do poema arte
Cortamos, então, para a cena doze: no poema que dá título ao livro, o autor tenta iludir-se e escreve: “pra falar é necessário ter alguém que vai ouvir”, como se a corporalidade de um ouvinte lhe permitisse ser honesto, lhe permitisse desabafar. No entanto, na sua epopeia de nove páginas, integridade, volta a ser honesto consigo próprio, ao seguir a sugestão de uma amiga, “minha amiga mandou eu escrever um poema sobre você / porque você foi um pouco canalha comigo / e cancelou nosso terceiro date cinco vezes seguidas, ao longo de quatro semanas”. Neste poema, Mantovani leva-nos, sorrateiramente, pelo altos e baixos de um não-relacionamento, das dúvidas e certezas que se têm em momentos impróprios de ter (“(...) e eu entendi / que uma vida inteira ainda era possível” e “porque, como sempre / eu podia mudar de ideia a qualquer momento, ou conhecer alguém melhor”), dos sentimentos que temos e que transbordam, fala também sobre coisas banais, como tapioca, sobre não mais poder partilhá-la: “e eu tinha guardado meio pacote de tapioca brasileira pra fazermos na sua casa”. Foram escolhas e consequências, a tapioca passou de validade e houve um golpe de estado. E como pode a dor de um fim comparar-se com uma tragédia política? Mantovani sabe que não pode, mas permite-se sentir. E, com a sua vivência, os seus sentimentos e as suas palavras, tece a sua poesia e, em comparação, tudo é tão pequeno. Depois, finaliza-o de forma simples e sincera, como quando nos cai o chão por nos apercebermos de uma verdade que nunca nos foi escondida.
Tal como Anne Boyer escreve em seu livro Vestuário contra mulheres (Cutelo, 2025), “Decidi tornar-me poeta para me poder queixar disto publicamente”, o autor parece utilizar das suas palavras escritas, e das que desejou ter escrito, para poder dizer, se queixar, dos infortúnios da vida adulta. A poesia de Mantovani é assim: melancólica e melodramática, cinematográfica. E não há como fugir ao enredo.
“embora tecnicamente seja sempre uma ficção”
— Rafael Mantovani, do poema teto baixo
Teto baixo continua o seu trabalho poético começado no, já esgotado, segundo livro, Você esqueceu uma coisa aqui (editado pela Enfermaria 6 em 2019).
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