RESENHA: MARQUES, Eliane. Sílex. São Paulo: Fósforo, 2025 (por Adriano Moraes Migliavacca)


MARQUES, Eliane. Sílex. São Paulo: Fósforo, 2025.


Adriano Moraes Migliavacca






Amefricanidade – essa a categoria fundada por Lélia González para teorizar sobre a experiência das populações negras das Américas. O projeto de uma europeidade como fundamento único das sociedades construídas nas Américas não logrou apagar as marcas de legados civilizacionais de povos ameríndios e africanos no continente. Diante da persistência de traços desses legados, González vê o funcionamento do mecanismo psicanalítico da denegação, o racismo seu sintoma, em que se projeta sobre a figura do negro aquilo que uma civilização que se quer europeia deseja expurgar de seu próprio projeto. O legado africano, no entanto, segue vivo e pulsante e, nas palavras do crítico estadunidense Henry Louis Gates Jr., seu hipotético desaparecimento seria mais de assombrar que sua real persistência.


O construto teórico psicanalítico de González vem, nos últimos tempos, recebendo alguns desenvolvimentos significativos. A também psicanalista, poeta e romancista Eliane Marques dialoga com esse legado gonzaliano em diversas frentes. À autora de Louças de família devemos a formulação de uma psicanálise amefricana, que busca em mitos de origem iorubana, ewe-fon e congo-angolana novos rostos para o funcionamento simbólico do inconsciente – uma perspectiva enfatizada pela própria Lélia Gonzáles quando diz que a amefricanidade se manifesta por razões tanto de ordem geográfica quanto inconsciente. Para além da psicanálise, Marques oferece sólido cabedal simbólico para a elaboração de uma amefricanidade em sua obra literária quer ficcional, com seu premiado romance Louças de família, quer poética, à qual se acrescenta o poemário Sílex, publicado em 2025 na coleção Círculo de Poemas da Editora Fósforo.


A poesia de Eliane Marques se dá a conhecer em 2009 com as líricas de Relicário. Em e se alguém o pano, de 2015, começa a se delinear um projeto literário que, se ainda não articulava a categoria de amefricanidade, já se movia na direção dela ao fazer surgir de rasgos da história negra brasileira uma linguagem que contorce em léxico e sintaxe o português que por vezes aprisiona essa própria história, enriquecendo-se de palavras de origens africanas e estruturas frasais que abrem possibilidades linguísticas. Em o poço das marianas, de 2019, os longos versos e a linguagem marcadamente histórica dão lugar a uma linguagem mais econômica, em termos quantitativos, mas possivelmente mais profunda. O poço do título, em sua circularidade, é gerador de uma poética em que o imaginário de autoras africanas como Léonora Miano e Scholastique Mukasonga, entre outras, se combinam em formas diversas.


Há, sem dúvida, um eco desse poço em Sílex, mas a linguagem que se movia no sentido de uma profundidade circular no livro anterior aqui assume outra mobilidade, tendo como figura a fluidez tanto horizontal quanto espiral da serpente – horizontal por se mover ao longo da história da constituição da amefricanidade, articulando em sua extensão mitologias mesoamericanas e africanas; espiral por, em diversos momentos, condensar-se em símbolos de intensidade, processos que podemos chamar de metamorfoses, aspecto central da obra de Marques, ainda pouco estudado por seus críticos.


Dividido em três seções (0, I e II), a obra se funda na articulação de mitos mesoamericanos, com a sílaba qán, percussivamente repetida ao longo da parte 0, invocando a serpente sagrada maia Kukulcán, sincretizada com a asteca Quetzalcóatl, que desce ao submundo e recolhe ossos sagrados, bem como toma às formigas o milho cujo amasijo fará a matéria prima para a modelagem da pele humana. Na parte I, o gesto da serpente se plurifica no cosmos em um sem número de elementos minerais, vegetais e animais que funcionam menos como símbolos em si e mais como formas nas quais a poética amefricana se estrutura. Particularmente admirável é o breve poema da página 18, em que a espiral descrita pela serpente em volta do pescoço da cabaça pare a figura da cabra, cujos cornos invocam o machado oxê – entalhado em sílex no poema da página 28 – de Xangô, senhor iorubano das simetrias, já evocado no poema da página 17 em sua saudação “caô, caô, caô” e imediatamente retomado no bifurcado do rabo da águia da página 19. No mundo mesoamericano, as formas encenadas pelos animais, vegetais e minerais prefiguram a chegada das divindades africanas.


É no último poema da seção I que Qán, a serpente emplumada, abre espaço para Dan, a píton sagrada daomeana que se enrosca ao redor do mundo para sustê-lo, regula os ciclos de fertilidade e os movimentos cósmicos e se presentifica em sua versão iorubana Oxumarê, na grafia afro-cubana Otchou-maré, e na sua saudação brasileira “arroboboi”. Em mais um breve poema, os legados mesoamericanos e oeste-africanos se condensam na constituição de uma poética amefricana.


A seção II vê o mundo mítico e ritual africano se condensando em símbolos e espaços, abrindo-se com a referência à galinha de cinco dedos, cujo ciscar, no mito iorubano, espalha areia aos quatro cantos, formando terra firme onde o mundo cultural vai se fundar. As invenções vocabulares e os procedimentos construtivos se multiplicam. O conflito entre diversas ordens de criação, simbolizadas por divindades como Xangô e Nanã Buruquê, se apresenta na página 43, e temos também, na página 46, uma condensação entre o espaço sagrado de uma cerimônia afro-brasileira e o mercado iorubano da peça teatral de Wole Soyinka Death and the King’s Horseman, com seu jogo em que noite e manhã se fecundam e, na linguagem do livro, engendram-se uma à outra em seus próprio bojos – movimento prenunciado no diálogo com a Todesfugue de Paul Celan no poema da página 29 – “o leite da alvorada ela bebe de noite”. É a um novo mundo que a interfusão de cosmologias ameríndias e africanas dá origem, com suas novas ordens de relações, tempos, espaços e símbolos.


O poemário Sílex oferece uma riqueza de material poético para se aprofundarem as pesquisas sobre essa realidade que Lélia González denominou amefricana e proporcionar uma expansão do imaginário relacionado ao mundo em que vivemos. Eliane Marques é nacionalmente conhecida como a autora do romance Louças de família – é recomendável ler Sílex juntamente com seu romance e seus livros de poemas anteriores, buscando-se neles um caminho para esse mundo amefricano. “será possível que esqueceu de abrir a porta?” – pergunta o poema da página 48. A chave está na obra.

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