RESENHA: NOGUEIRA, Érico. Contra um bicho da terra tão pequeno. São Paulo: É, 2018.

 NOGUEIRA, Érico. Contra um bicho da terra tão pequeno. São Paulo: É, 2018.


Guilherme Gontijo Flores



No final do primeiro canto d’Os Lusíadas, cantava Camões: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o Céu sereno/ contra um bicho da terra tão pequeno?” Em resposta e desdobramento destes versos clássicos, Érico Nogueira lança a novela Contra um bicho da terra tão pequeno, alterando a pergunta camoniana para uma possível afirmativa, ou para uma proposição política e poética. 



Professor de latim na Unifesp, Nogueira fez sua carreira em diálogo cerrado com a tradição; até o momento, foram três livros de poemas, O livro de Scardanelli (2008), Dois (2010) e Poesia bovina (2014) — os dois últimos finalistas no Jabuti —, além dos ensaios reunidos em Quase poética (2017). Contra um bicho da terra tão pequeno é sua estreia na ficção, uma novela que funde triângulo amoroso e farsa política numa narrativa vertiginosa e hilariante que trata de temas muito sérios e delicados.


Grosso modo, eis o resumo: um poeta entra em conspiração para derrubar o presidente (empolado poeta de quinta, nós conhecemos um assim), figura bonachona e também seu rival amoroso na disputa pela atual primeira-dama, bela cocainômana para desfile. Nesse meio tempo, vemos uma série de cenas que funcionam como sátira dos costumes e das instituições desta terra brasilis, com direito até a portarias federais sobre escrita de verso e prosa e a um louvor ao campári, tudo num modelo que, ao mesmo tempo em que reverbera o cinema mais ágil, como o de um Quentin Tarantino, também desenvolve uma escrita expressiva, elástica, raríssima em tempos de romance de gosto jornalístico. 



Pelo contrário, Nogueira passeia pelo verso entremeado à prosa, numa retomada da tradição da sátira menipeia que encontramos no Satyricon de Petrônio, além de misturar registros rapidamente, sem dar ao leitor nem tempo para respirar. Por isso não se espere aqui que o poeta seja o herói contra a mesquinharia, um bastião da linguagem e da ética; o mundo retratado nesta novela é tão próximo de nós, que não há chance de heróis. Tudo está contaminado. Vejamos um trecho:

“Graças ao maxilar endurecido, a cocaína sempre a salvava, parecia estar sorridente, dentes alvíssimos à mostra, o que já bastava para prevenir mexericos e evitar maiores aporrinhações. Correu a inauguração como as inaugurações costumam correr; isto é, lenta e insuportavelmente. O secretário caceteou; abusou a futura diretora; o prefeito levou a chatice ao paroxismo; e até o chefe da oposição quis tirar uma casquinha, Jesus, fazendo de cereja do bolo: total, três horas de verborreia, uma forma de -reia invariavelmente pior que a dia- ou a gono-.” 


Nogueira aposta na farsa com uma linguagem viva, intensa, e acerta na mosca; não é todo dia que encontramos uma novela com o vigor da melhor poesia satírica e um pendor tão forte para enfrentar o presente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ENSAIO: "'A herança': sangue, afeto e a economia do sagrado" - Zila Mamede por Marize Castro

RESENHA: VILLA, Dirceu. Ciência nova. São Paulo: Laranja Original, 2023 (por Diogo Cardoso)

RESENHA: CAPILÉ, André. Infenso. Juiz de Fora: Macondo Edições, 2025 (por Alexandre Nodari)