TRADUÇÃO: "A Palavra, uma divindade Feminina: Hinos do RIGVEDA por Leonardo Valverde"
A PALAVRA, UMA DIVINDADE FEMININA
por Leonardo Valverde
O que importa é que o mundo continuará a ser o lugar das epifanias.
Roberto Calasso
Os dois hinos-poemas que o leitor encontrará a seguir fazem parte da mais antiga coleção de poesia das línguas indo-europeias, a mais vasta família linguística, que inclui línguas tão distantes quanto o sânscrito e o português. Essa coleção chegou até nós com 1028 hinos-poemas (sūkta), distribuídos em 10 livros-círculos (maṇḍala). Os livros 2 a 9 são os mais antigos, enquanto os livros 1 e 10 são posteriores. Apesar dessa diferença, todos datam de há cerca de três milênios e representam uma parte essencial da mais antiga tradição de poesia oral da cultura indo-europeia.
A coleção chama-se Rigveda (ṛc, “louvar” + veda, “conhecimento”), provavelmente um título dado quando foram reunidos. Os hinos foram criados e recitados por poetas (ṛṣi) da cultura védica por volta de 1500 a.C. Mais tarde, entre 1200 e 1000 a.C., foram reunidos e organizados como coleção (saṃhitā) durante o reinado dos Kuru, um reino-clã situado a noroeste, região hoje correspondente ao Afeganistão, junto ao rio Sarasvati — atualmente inexistente.
De todos os hinos-poemas, porque traduzir justamente os dois da maṇḍala 10, os 10.71 e 10.125?
A tradução destes hinos do Rigveda apresentada aqui é a primeira feita diretamente do sânscrito védico (a forma mais antiga do sânscrito) para o português. Infelizmente, ainda não possuímos uma tradução completa da coleção e, à primeira vista, pode parecer estranho começar justamente pelo livro final, ou por um dos mais recentes. No entanto, essa escolha não é tão estranha como parece. Toda a coleção — os 1028 hinos-poemas — pertence a uma tradição oral de poesia. Nenhum hino foi originalmente escrito, pois, na época, não existia escrita para essa língua védica. Os poemas eram compostos oralmente, memorizados pelos poetas e recitados em ocasiões propícias, como rituais, cerimônias ou dias especiais marcados por eventos astrológicos.
Nessa cultura oral védica, o poeta (ṛṣi) era visto como um sábio, uma espécie de xamã (palavra que remonta ao sânscrito śramaṇa), e cabia-lhe manter a ligação entre a Terra e o Céu. Assim, podemos dizer que esses poemas faziam parte de uma tradição mística e encantatória que a poesia viria a perder ao longo do tempo — já na Antiguidade, as poesias grega e latina surgiram com intenções diferentes, por exemplo.
Dentro dessa coleção, o livro (maṇḍala) 10 tem uma história particular. Não se trata de um livro familiar, como os livros 2 a 9, compostos para as famílias e recitados em ocasiões especiais desses clãs. Em vez disso, reúne hinos-poemas de origens diversas, alguns até tão antigos ou mais antigos que os chamados “livros familiares”. Os dois hinos que o leitor encontrará aqui inserem-se nesse contexto: não pertencem à tradição familiar, nem são tão recentes quanto seria de esperar do livro 10. Muito provavelmente, são até mais antigos do que alguns considerados os mais antigos da coleção. E não se destacam apenas pela questão da sua antiguidade, mas sobretudo pelos valores poético-místicos que trazem implícitos nos seus textos. Não sabemos sobre o espaço de tempo entre esses dois hinos, o 71 e o 125, sabemos que não foram compostos na mesma época a partir de uma análise filológica dos textos.
Antes de mais, convém sublinhar que não existe, em nenhuma outra coleção de poesia antiga — dentro do espectro das línguas indo-europeias — uma valorização da palavra (vāk) tão intensa como a que se encontra no Rigveda. O que se observa nestes dois hinos-poemas não se compara, por exemplo, à importância atribuída à palavra (e à poesia) na cultura grega ou latina. E veremos porquê.
O primeiro desses dois valores poético-místicos pode ser chamado de “caso recíproco”. O poeta dirigia a sua performance ao Céu, ao cosmos, e recebia em troca a inspiração necessária para sua criação poética. A sua obra constituía parte essencial da oblação: o hino-poema erguia-se como um mundo diante do Cosmos. Cada detalhe contava: a escolha das palavras, a métrica, o ritmo, a pronúncia correta de cada letra e até os gestos (mudrā) faziam parte da performance. Uma falha — mesmo mínima — comprometia o resultado: o Céu não descia à Terra, o patrono (dono da cerimônia) e a audiência não recebiam as “bênçãos celestes”. Foi nesse diálogo entre mundos que nasceu a poesia védica. Os poetas, sábios por excelência, funcionavam como pontes entre o humano e o divino, um divino que surge da prosopopeia. A sua poesia, tal como a fumaça do fogo sacrificial que subia ao Céu, cumpria uma função vital. E, ao fim, era também reconhecida materialmente: os poetas eram recompensados pelo patrono — por vezes com grandes fortunas, como eles próprios mencionam em muitos hinos.
O segundo valor poético-místico — talvez o único verdadeiramente exclusivo dessa cultura védica — era o fato de os poetas criarem seus próprios deuses e deusas. A poesia tinha caráter panegírico: louvava-se o patrono como se fosse uma divindade. Assim, o deus nascia na Terra na forma desse patrono. Nos poemas, o nome do patrono estava sempre presente, mas disfarçado sob o nome de um deus já conhecido. Vemos isso claramente neste primeiro hino, o 10.71, em que surge o nome Brhaspati, divindade associada ao planeta Júpiter. Convém lembrar que, no Rigveda, os deuses são sobretudo deidades naturais, representações de fenômenos da Natureza. A poesia do Rigveda é também marcada pela metalepse: dois níveis narrativos — o mitológico e o cosmológico — apresentam-se e substituem-se mutuamente, compondo os dois mundos criados pelo poeta (ṛṣi).
Mas afinal, quem foi esse poeta do passado? Não o vidente religioso que muitas tradições hinduístas e seitas ainda hoje descrevem. Ele foi um ‘vidente’ no sentido criativo: criador de mundos, artista, comunicador com o Cosmos, animador da Natureza ao transformá-la em deuses através da poesia.
Não se tratava de um ser perfeito, dotado de visões privilegiadas ou de acesso a textos ocultos. Pelo contrário, era parte de um processo multigeracional, diacrônico e tradicional, em que cada poeta novo recorria à memória do passado, refazia o presente e criava emulação de gerações anteriores, atribuindo novos significados, embora preservando fórmulas linguísticas arcaicas.
Não conhecemos a história real desse povo, das tribos e clãs, da cultura, nem da arte, comunidade e sociedade que criaram os 1028 hinos-poemas do Rigveda — certamente em número ainda maior do que os hinos que chegaram até nós. O que restou, redescoberto de uma tradição oral com mais de três milênios, é uma poesia mágica ou mística, se a entendermos como uma “experiência primeira”, uma “experiência do mistério”, uma epifania.
O que nos foi legado são os textos poéticos: os hinos-poemas que hoje podemos ler. E aquilo que ainda podemos afirmar — agora, no presente — é que neles persiste algo de mágico, de místico, de misterioso. Neles, o mitológico e o cosmogônico, e até a própria palavra (vāk), podem ser redescobertos, recitados e tornados atos performáticos em nosso tempo. Reviver essa experiência é reencontrar um fenômeno artístico profundo da consciência humana. É nesse espírito que apresento, em língua portuguesa, estes dois hinos-poemas do Rigveda.
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Sobre a tradução
Em itálico estão os nomes próprios em sânscrito, a palavra “palavra” — em minúscula no primeiro hino, pois ainda não assume estatuto de nome próprio, e em maiúscula no segundo, onde já se apresenta como tal —, bem como os termos originais em sânscrito adaptados ao português.
A métrica original é o triṣṭubh, um verso de 22 sílabas com cesura na 11.ª sílaba. As estrofes são dísticos (2x22), por vezes organizadas em 4x11. A tradução foi feita em hendecassílabo, mas não segui a acentuação tradicional dessa métrica; antes, procurei respeitar a acentuação do verso original em sânscrito.
No primeiro hino (10.71), a palavra é objeto de reverência. No segundo (10.125), ela já surge como deusa. No hino 10.71, Brhaspati é invocado e o poeta dedica-lhe a sua reverência à palavra. Já no hino 10.125, é a própria Palavra, personificada como deusa, força ou fenômeno, que fala em primeira pessoa sobre si mesma.
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Dois hinos (sūkta) à Palavra — Vāk. Rigveda — ऋग् वेद (1500 a.C.)
tradução Leonardo Valverde
Rig-Veda 10.71 — ऋग् वेद १०.७१
I.
बृह॑स्पते प्रथ॒मं वा॒चो अग्रं॒ यत्प्रैर॑त नाम॒धेयं॒ दधा॑नाः ।
यदे॑षां॒ श्रेष्ठं॒ यद॑रि॒प्रमासी॑त्प्रे॒णा तदे॑षां॒ निहि॑तं॒ गुहा॒विः ॥
Brhaspati, quando a primeira palavra
conduziu-se denominando os objetos,
era tanto excelente quanto impecável,
proferida em segredo com afeição.
II.
सक्तु॑मिव॒ तित॑उना पु॒नन्तो॒ यत्र॒ धीरा॒ मन॑सा॒ वाच॒मक्र॑त ।
अत्रा॒ सखा॑यः स॒ख्यानि॑ जानते भ॒द्रैषां॑ ल॒क्ष्मीर्निहि॒ताधि॑ वा॒चि ॥
Os sábios formaram a palavra ideal,
como um homem joeira o grão na peneira,
os amigos reconhecem a amizade,
a palavra retém a fortuna próspera.
III.
य॒ज्ञेन॑ वा॒चः प॑द॒वीय॑माय॒न्तामन्व॑विन्द॒न्नृषि॑षु॒ प्रवि॑ष्टाम् ।
तामा॒भृत्या॒ व्य॑दधुः पुरु॒त्रा तां स॒प्त रे॒भा अ॒भि सं न॑वन्ते ॥
Seguiam a palavra por sacrifício,
encontravam-na em abrigo nos poetas,
trouxeram-na e entregaram-na muitas vezes
— os sete bardos recitam em concerto.
IV.
उ॒त त्व॒: पश्य॒न्न द॑दर्श॒ वाच॑मु॒त त्व॑: शृ॒ण्वन्न शृ॑णोत्येनाम् ।
उ॒तो त्व॑स्मै त॒न्वं१॒॑ वि स॑स्रे जा॒येव॒ पत्य॑ उश॒ती सु॒वासा॑: ॥
Alguém vendo a palavra não a viu, de fato,
alguém escutando-a por certo não a escuta,
para outro ela manifesta-se em pessoa
— como a esposa atraente para o marido.
V.
उ॒त त्वं॑ स॒ख्ये स्थि॒रपी॑तमाहु॒र्नैनं॑ हिन्व॒न्त्यपि॒ वाजि॑नेषु ।
अधे॑न्वा चरति मा॒ययै॒ष वाचं॑ शुश्रु॒वाँ अ॑फ॒लाम॑पु॒ष्पाम् ॥
Chamam alguém em companhia da palavra
como aquele que estimula bons valores,
aquele desgarrado vaga em ilusão
escutando a palavra sem fruto ou flor.
VI.
यस्ति॒त्याज॑ सचि॒विदं॒ सखा॑यं॒ न तस्य॑ वा॒च्यपि॑ भा॒गो अ॑स्ति ।
यदीं॑ शृ॒णोत्यल॑कं शृणोति न॒हि प्र॒वेद॑ सुकृ॒तस्य॒ पन्था॑म् ॥
Como abandonar a amizade de um amigo,
ele, assim, não participa da palavra,
para tudo que escuta, escuta por nada,
pois não conhece o caminho da virtude.
VII.
अ॒क्ष॒ण्वन्त॒: कर्ण॑वन्त॒: सखा॑यो मनोज॒वेष्वस॑मा बभूवुः ।
आ॒द॒घ्नास॑ उपक॒क्षास॑ उ त्वे ह्र॒दा इ॑व॒ स्नात्वा॑ उ त्वे ददृश्रे ॥
Os amigos d'ouvidos e olhos iguais
originaram ideias diferentes,
alguns como um lago ao alcance da boca e ombro,
outros como um lago ao banho e à admiração.
VIII.
हृ॒दा त॒ष्टेषु॒ मन॑सो ज॒वेषु॒ यद्ब्रा॑ह्म॒णाः सं॒यज॑न्ते॒ सखा॑यः ।
अत्राह॑ त्वं॒ वि ज॑हुर्वे॒द्याभि॒रोह॑ब्रह्माणो॒ वि च॑रन्त्यु त्वे ॥
Quando os amigos brâmanes sacrificam
com intelecto o que é de cor esculpido,
eles deixam de fato a fama bem longe
e andam livres como brâmanes sem rumo.
IX.
इ॒मे ये नार्वाङ्न प॒रश्चर॑न्ति॒ न ब्रा॑ह्म॒णासो॒ न सु॒तेक॑रासः ।
त ए॒ते वाच॑मभि॒पद्य॑ पा॒पया॑ सि॒रीस्तन्त्रं॑ तन्वते॒ अप्र॑जज्ञयः ॥
Aqueles que não andam nem aqui nem ali,
não são declamadores, nem mesmo brâmanes,
alcançando a palavra com maldade abjeta
tecem o fio no tear da ignorância.
X.
सर्वे॑ नन्दन्ति य॒शसाग॑तेन सभासा॒हेन॒ सख्या॒ सखा॑यः ।
कि॒ल्बि॒ष॒स्पृत्पि॑तु॒षणि॒र्ह्ये॑षा॒मरं॑ हि॒तो भव॑ति॒ वाजि॑नाय ॥
Todos amigos alegram-se do amigo
ao retornar à assembléia com estima,
ao evitar ofensas, partilhar bebida,
ele é por certo adequado à oblação.
XI.
ऋ॒चां त्व॒: पोष॑मास्ते पुपु॒ष्वान्गा॑य॒त्रं त्वो॑ गायति॒ शक्व॑रीषु ।
ब्र॒ह्मा त्वो॒ वद॑ति जातवि॒द्यां य॒ज्ञस्य॒ मात्रां॒ वि मि॑मीत उ त्वः ॥
Alguém habita o próspero verso gaiatri,
outro em prosperidade canta em chakvari;
outro, o brâmane, declara a erudição,
um outro do sacrifício mede a métrica.
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Notas:
“Brhaspati” é o nome para o planeta Jupiter, o maior planeta, portanto, o maior benfeitor, o ‘mestre dos mestres’, ele (o planeta) rege o intelecto, a fala, a sabedoria, é o provedor da proteção, mas devemos lembrar que neste hino ele ainda não é a deidade hinduísta, e possivelmente é uma forma respeitosa e reverente de se direcionar ao patrono do hino, para quem o poeta criou o hino-poema.
“os sete bardos” possivelmente ligado à constelação Ursa Maior, com suas sete estrelas, a palavra रे॒भा “rebhā” é um sinônimo da palavra“ṛṣi”, traduzida como ‘bardo’ ou panegirista’. Nem os nomes desses bardos, nem uma divindade para eles era conhecido à época, mais tarde se tornariam os Saptarṣi, ou os sete videntes, da tradição hindu.
“gaiatri / chakvari” são dois tipos de métricas do verso sânscrito, o gāyatrī é uma métrica comum e famosa no Rigveda, mais usada para recitações, o śakvari é uma métrica para se cantar, em canções, não tão comum nos hinos do Rigveda. Essa última estrofe, toda ela, descreve uma cerimônia, com o verso recitado, a canção cantada, algum pronunciamento intelectual e a arena sacrificial construída, medida, com engenharia.
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Rigveda 10.125 — ऋग् वेद १०.१२५
I.
अ॒हं रु॒द्रेभि॒र्वसु॑भिश्चराम्य॒हमा॑दि॒त्यैरु॒त वि॒श्वदे॑वैः ।
अ॒हं मि॒त्रावरु॑णो॒भा बि॑भर्म्य॒हमि॑न्द्रा॒ग्नी अ॒हम॒श्विनो॒भा ॥
Vagueio com Rudra, Vasus, com Ādityas,
vagueio semelhante com Viśvadevas;
mantenho ambos Varuṇa, também Mitra,
mantenho Indra, Agni, ambos Aśvins.
II.
अ॒हं सोम॑माह॒नसं॑ बिभर्म्य॒हं त्वष्टा॑रमु॒त पू॒षणं॒ भग॑म् ।
अ॒हं द॑धामि॒ द्रवि॑णं ह॒विष्म॑ते सुप्रा॒व्ये॒३॒॑ यज॑मानाय सुन्व॒ते ॥
Mantenho a bebida fermentada Soma,
mantenho também Bhaga, Pūṣan, Tvaṣṭā;
doou riquezas em oferta a uma oblação,
ao patrono zeloso, a quem produz o Soma.
III.
अ॒हं राष्ट्री॑ सं॒गम॑नी॒ वसू॑नां चिकि॒तुषी॑ प्रथ॒मा य॒ज्ञिया॑नाम् ।
तां मा॑ दे॒वा व्य॑दधुः पुरु॒त्रा भूरि॑स्थात्रां॒ भूर्या॑वे॒शय॑न्तीम् ॥
Sou a rainha, o reencontro, a excelência,
sou a primeira notada em sacrifícios,
esses deuses distribuíram-me em tudo,
em lugares abundantes, bem exposta.
IV.
मया॒ सो अन्न॑मत्ति॒ यो वि॒पश्य॑ति॒ यः प्राणि॑ति॒ य ईं॑ शृ॒णोत्यु॒क्तम् ।
अ॒म॒न्तवो॒ मां त उप॑ क्षियन्ति श्रु॒धि श्रु॑त श्रद्धि॒वं ते॑ वदामि ॥
Por mim, ele alimenta-se do alimento,
ele observa, respira, escuta o que é dito,
ignorantes de mim perecem próximos,
— digo-te em confiança, ouve aquilo ouvido.
V.
अ॒हमे॒व स्व॒यमि॒दं व॑दामि॒ जुष्टं॑ दे॒वेभि॑रु॒त मानु॑षेभिः ।
यं का॒मये॒ तंत॑मु॒ग्रं कृ॑णोमि॒ तं ब्र॒ह्माणं॒ तमृषिं॒ तं सु॑मे॒धाम् ॥
Eu, assim, espontaneamente declaro isto:
sou apreciada por deuses e por homens,
crio o homem e o deus que amo poderoso,
crio o intelectual, o brâmane e o poeta.
VI.
अ॒हं रु॒द्राय॒ धनु॒रा त॑नोमि ब्रह्म॒द्विषे॒ शर॑वे॒ हन्त॒वा उ॑ ।
अ॒हं जना॑य स॒मदं॑ कृणोम्य॒हं द्यावा॑पृथि॒वी आ वि॑वेश ॥
Envergo o arco de Rudra para a flecha
eliminar aqueles hostis aos brâmanes,
eu produzo o conflito do homem hostil,
eu penetro tanto a terra quanto o céu.
VII.
अ॒हं सु॑वे पि॒तर॑मस्य मू॒र्धन्मम॒ योनि॑र॒प्स्व१॒॑न्तः स॑मु॒द्रे ।
ततो॒ वि ति॑ष्ठे॒ भुव॒नानु॒ विश्वो॒तामूं द्यां व॒र्ष्मणोप॑ स्पृशामि ॥
Deste cume, concedo a vida ao ancestral,
do meu útero surgem as águas do oceano,
assim, me estendo a todos os seres vivos,
eu toco a parte mais alta do céu claro.
VIII.
अ॒हमे॒व वात॑ इव॒ प्र वा॑म्या॒रभ॑माणा॒ भुव॑नानि॒ विश्वा॑ ।
प॒रो दि॒वा प॒र ए॒ना पृ॑थि॒व्यैताव॑ती महि॒ना सं ब॑भूव ॥
Sopro exatamente como o vento forte,
mantenho junto e firme toda a existência,
para além do céu, para além da terra vasta,
tornei-me poderosa em minha grandeza.
***
Notas:
“Rudra, Vasus, Ādityas, Viśvadevas, Varuṇa, Mitra, Indra, Agni, Aśvins”, divindades do Rigveda, nenhum deles ainda antropomórfico, mas representações de fenômenos naturais ou cosmológicos: Rudra tempestades, Vasus elementos da natureza, Agni fogo, p.ex. Desses, os Aśvins são os mais antigos, os gêmeos ligados ao sol, já presentes na mitologia indo-europeia, os “netos” do deus-Céu (*Dyēus), que era reverenciado nessa cultura, “cavalo” seu significado literal (de *H1éḱwos), esse animal caríssimo à cultura e ao povo indo-europeu, aliás, o cavalo não era natural da região onde a cultura do Rigveda surgiu, um animal forasteiro, prova inclusive da descendência da cultura védica.
“Soma”, a bebida preparada e usada em muitas cerimônias, seu significado ‘pressão’, porque era preparada com batidas do caule de uma planta, uma palavra comum a cultura indo-iraniana, aparece também como “haoma” em textos avésticos compostos por Zarathustra. A bebida tão comum e tão potente tem 114 hinos dedicados a ela distribuídos por todo o Rigveda. Bebê-la era um passo para a imortalidade, e a planta usada possivelmente alucinógena (pesquisas propõem seis tipos de planta e até um tipo de cogumelo, todos encontrados naquela região), embora não se tenha certeza.
“Bhaga, Pūṣan, Tvaṣṭā”, também divindades em ligação com atividades humanas, a ‘riqueza’, o ‘pastoreio’, o ‘artesanato’, respectivamente, ligados às ações importantes do povo védico.
“ouve aquilo ouvido”, um tipo bem comum de construção frasal nos hinos do Rigveda, em geral, fórmulas muito antigas que vieram ainda de uma língua anterior indo-iraniana.
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Leonardo Valverde é filólogo, linguista e poeta; pesquisador de línguas antigas, poliglota em línguas vernáculas. Seu primeiro livro de poesia “Sinfonia de pedras” foi publicado em 2025, pela Editora Libertinagem (São Paulo).
PS: O texto original sânscrito com transliteração latina pode ser encontrado aqui:
https://www.rigveda.co.uk/

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