RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 1: Dimitri BR: OCUPA (7 Letras, 2016)
PATRÍCIA LINO: 7 livros de poemas para o século XXII
I think there is no light in the world
but the world
And I think there is light
George Oppen
As sete autoras incluídas neste ensaio, no mínimo, ambicioso e destinado, por isso, ao fracasso, partilham o facto de: a) terem nascido no Brasil; b) desenvolverem uma ou mais linhas que considero representativas dos poemas que, no contexto da vida cultural brasileira, se fazem e publicam hoje; e, finalmente, c) terem publicado o seu primeiro livro depois do ano 2000 e o volume aqui em análise durante os últimos dez anos.
A análise destas sete publicações trata-se, ao mesmo tempo, da pequena amostra de um ensaio consideravelmente maior que, sob a forma de um futuro livro, se dedicará a pensar com igual ousadia, mas nem por isso inutilmente, a sequência de livros de poemas publicados no Brasil durante a última década.
Parte 1: Dimitri BR: OCUPA (7 Letras, 2016)
Se, por um lado, o evidentemente provocador OCUPA de Dimitri Br resgata, no contexto pós-Jornadas de Junho de 2013, o tema da realfabetização oswaldiana com recurso à exposição destemida, queer e coletiva do corpo, por outro, a aptidão deste corpo para impor-se no espaço público recupera a energia descaradamente urbana das performances de Flávio de Carvalho, Adrian Piper, Paulo Bruscky ou Eduardo Kac.
Com efeito, a dimensão infantil e, ao mesmo tempo, pedagógica dos poemas e desenhos de Oswald de Andrade no Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade (1927) ou do formato igualmente interdisciplinar de Álbum de Pagu (1929) de Patrícia Galvão não só está por detrás da série prolífera de livros de poemas com desenhos publicados entre os anos 70 e 2000 —, mas também incentiva, dez anos mais tarde, a retomada legitimadora da manualidade e do gatafunho (Guilherme Zarvos, Lições Educacionais para Tintum, 2012) ou de exercícios interativos tão simples e divertidamente escolares: colorir, por exemplo, o interior da palavra.
A ressignificação do país não corresponde, porém — e assim o era para os modernistas —, a regressar imaginariamente, e de modo estritamente individual, à sala de aula com o propósito de reescrever a História. Diz, antes, respeito, assim como em Experiência n. 3 (1956), Catalysis III (1970), O que é arte? Para que serve? (1978) ou Pelo Strip-tease da Arte (1982), à ocupação em bando e indevida da escola e da rua com vista ao reconhecimento do corpo (“DESPERDÍCIO// pesquisas apontam/ há quem use menos/ de 10% do corpo/ para fazer sexo”, 2016: 11), das suas vergonhas cristianizadas
(LA__NA
todo mundo
tem __
ele e ela
eu e tu
quem tem __
tá vivo
quem tá vivo
tem __
quem tem __
tem medo?
quem tem
medo do __?)
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delas, claro, o inabalável e “verdadeiro idiota da família” (Sloterdijk, 2011: 199) e da retrete, ou à reeducação sexual (“toda mulher tem um pau/ cor-de-rosa, ela disse”, 18) e identitária (“meu bem que bom/ que você não é/ homem// meu bem que bom/ que as vezes/ você é”, 19) dos participantes.
Além disso: o que encaixa formal e tematicamente na tese de Flora Süssekind (2016) sobre o retorno da canção de exílio para o poema brasileiro do novo milénio e lembra, muito naturalmente, os trabalhos de Angélica Freitas transforma-se, muito depressa, na dissolução lúdica e co-autoral do cânone literário.
Herdeiro nada menos do que da interatividade interpretativa desenvolvida por Gregório de Matos, concretos, neoconcretos e poema/processo entre os anos 50 e 70 e leitor atento dos seus contemporâneos, Dimitri abre a segunda secção de OCUPA, “Quadrilha: três modos de jogar”, com “Jogo 1: quadrilha 3D6” (“material: um dado de seis lados// lance o dado três vezes sucessivas/ descubra o nome do personagem/ sua paixão e seu destino// 1. João/ 2. Teresa/ 3. Raimundo/ 4. Maria/ 5. Joaquim/ 6. Lili”, 33).
A possibilidade de recriar e variar, igualmente, a recriação da quadrilha drummondiana traz-me, de imediato, à memória, pelo uso tão formal quanto labiríntico da múltipla escolha, Facsímil (2014) de Alejandro Zambra, Escala Ritcher (2015) de Leonardo Gandolfi ou, por exemplo, Regras para a Direcção do Espírito (2022) de Pedro Eiras e, pela escolha do poema a apropriar, “Quadrilha revisitada” (2010) do próprio Dimitri, “Quadrilha irritada” (2011) de Ricardo Domeneck, “Quadrilha” (2015) de Lívia Natália e “Virilha” (2017) de Maria Isabel Iorio.
O jogo não para obviamente aqui. Insurge-se, à semelhança da proposta de Maria Isabel, contra as limitações do binarismo (“Jogo 2: quadrilha não-binária”), fá-lo através de instruções a serem executadas pela leitora e dá coerentemente lugar à terceira secção do livro, “De volta às aulas”, cujas lições de casa dispostas, muitas vezes, por alíneas, nos aconselham a, “em vez de perguntar/ por que crianças gritam/ na rua”, perguntar “por que/ não gritam na rua/ os adultos” (39).
É justamente a implosão cómica e debochadamente autoritária da logicidade que cria as condições para que, na última das secções do volume, o corpo entre de modo intuitivo “[n]um caminhão sem freio” (63) para chegar à alegria inconsolável da dúvida.
Com todo cinismo que há na corrida.

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