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Mostrando postagens de março, 2026

ENSAIO: "'A herança': sangue, afeto e a economia do sagrado" - Zila Mamede por Marize Castro

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  A herança : sangue, afeto e a economia do sagrado por Marize Castro A herança , último livro da poeta Zila Mamede (1925-1985), reeditado pela Editora da UFRN em 2025, na Coleção Zila, Toda Poesia, é um livro sobre transmissão. Mas não apenas no sentido familiar ou biológico. O que está em jogo aqui é a economia simbólica do pertencimento: o que passa de um corpo a outro, de uma geração a outra, de uma linguagem a outra — e o que se perde no percurso. A palavra “herança” carrega uma ambiguidade estrutural: é dádiva e é fardo. Em Zila Mamede, essa duplicidade não se resolve; ela se dramatiza. O livro se organiza em duas partes — “O sangue” e “O afeto” — como se o que herdamos fosse, simultaneamente, matéria e gesto, biologia e escolha, destino e elaboração. A abertura do poema central já condensa essa tensão: “Sete irmãos, sete os herdeiros / e o pai, nove as janelas: a mãe / ja...

FICÇÃO / TRADUÇÃO: "Uma Família Inteira Desaparece", de Gunnhild Øyehaug

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O TIO-AVÔ (levanta-se no meio do velório. Bate no copo com uma colher) UMA FAMÍLIA INTEIRA (prende a respiração) UMA FAMÍLIA INTEIRA (fica mexendo nos guardanapos. Sabe do que esse tio-avô  é capaz. As velas reluzem, lufadas de vento das janelas semiabertas bagunçam o cabelo  nas cabeças nervosas de UMA FAMÍLIA INTEIRA) O TIO-AVÔ (limpa a garganta) O TIO-AVÔ (diz algo que faz com que UMA FAMÍLIA INTEIRA perceba subitamente que sua mãe, avó e bisavó, que acabou de ser enterrada, tinha uma vida sexual) UMA FAMÍLIA INTEIRA (olha para o chão) O TIO-AVÔ (continua. Conta algo que faz com que UMA FAMÍLIA INTEIRA perceba subitamente que foi por um triz que sua mãe, avó e bisavó, recém-enterrada, se casou com seu falecido pai, avô e bisavô) UMA FAMÍLIA INTEIRA (bebe suco de mirtilo, o último suco de mirtilo que sobrou na despensa dela, e medita sobre isso, talvez lembrando de um verão na década de 1920, quando eles estavam noivos, um verão que ela passou longe dele, trabalhando na colh...

FICÇÃO: "Divino Pau", de Gustavo Pacheco

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Excelentíssimo Senhor Presidente da República, 1. Tenho a honra de submeter à apreciação de Vossa Excelência o anexo projeto de lei que dispõe sobre a mudança de denominação da República Federativa do Brasil. 2. A referida mudança é reclamada de longa data por milhões de cidadãos tementes a Deus. O que se reclama é o uso de uma denominação mais adequada às novas condições materiais e espirituais em que a nação se encontra, graças a Vossa Excelência. 3. Como se sabe, a República Federativa do Brasil deriva seu nome da espécie vegetal pau-brasil ( Paubrasilia echinata ), também conhecida como ibirapitanga, arabutã e pau-de-tinta. Caracteriza-se o referido lenho pela abundância do pigmento brasilina, de cor alaranjada, que, em contato com o ar, transforma-se no pigmento brasileína, de cor vermelha, usado para tingir panos e vestimentas. 4. Escusado dizer que a atual denominação do país não foi a única, nem a primeira, a ser utilizada ao longo de sua história, como prova a expressão Terra ...

RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 7: Sal de Fruta (Círculo de Poemas, 2023)

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Mais do que em coletâneas como Fruits & Vegetables (1971) de Erica Jong e incontáveis poemas sobre fruta assinados, em vários idiomas, por João Cabral de Melo Neto, Paul Valéry, Cecília Meireles, Eugénio de Andrade, Joaquim Cardozo, Shin Yu Pai, Rainer Maria Rilke, Charles Simic, Wendy Cope ou, por exemplo, Rui Knopfli, encontro no divertido e inteligente Sal de Fruta um herdeiro direto de “Setor microlições de coisas” ( Poliedro , 1972) de Murilo Mendes que, por sua vez, recria o procedimento dicionarístico de Le Parti pris des choses (1942) de Francis Ponge. Incluído na coleção de plaquetes da Círculo de Poemas, dedicada em 2023 ao tema dos mapas, Sal de Fruta reúne quinze textos sobre quinze frutos (“Laranja”, “Banana”, “Figo”, “Caqui”, “Limão”, “Caju”, “Melão”, “Abacaxi”, “Coco”, “Cajá”, “Romã”, “Nêspera”, “Manga”, “Melancia”, “Maçã”) que partilham, à excepção da banana, contornos evidentemente arredondados e que, ordenados de modo estratégico, compõem o mapeamento individu...

RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 6: Lucas Litrento: Pretovírgula (Círculo de Poemas, 2023)

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(intro) não se trata de deixar a gira   nem de ser freio de roda o sol não dança por acaso antes o cálculo do improviso a pausa breve                  (Litrento, 2023) Lucas começa por desenhar uma circunferência no espaço que é, simultaneamente, um aviso e o rascunho de uma lente cinematográfica. O aviso, de que nada, o poema ou a vida, se suspende por inteiro encaixa Pretovírgula tanto na “gira”, como um objeto móvel e volátil, quanto, pela possibilidade de interceptar o remoinho, na “pausa breve”. Já a lente, circular à maneira de todas as outras, irá focar-se, no segundo dos textos, em Dom Miguel que, além de falar para ela, descreve o terror causado em Maceió por   SANDRINHO! parecia um indiozinho às vezes saía do meio da mata com um facão trançado e uma navalha que brilhava A câmera, que logo depois se move em “[zoom óptico x2]”, filma “o granulado juntando terra molhada” e interrompe a gravação nos “olhos de sandrinho” que ...