RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 7: Sal de Fruta (Círculo de Poemas, 2023)

Mais do que em coletâneas como Fruits & Vegetables (1971) de Erica Jong e incontáveis poemas sobre fruta assinados, em vários idiomas, por João Cabral de Melo Neto, Paul Valéry, Cecília Meireles, Eugénio de Andrade, Joaquim Cardozo, Shin Yu Pai, Rainer Maria Rilke, Charles Simic, Wendy Cope ou, por exemplo, Rui Knopfli, encontro no divertido e inteligente Sal de Fruta um herdeiro direto de “Setor microlições de coisas” (Poliedro, 1972) de Murilo Mendes que, por sua vez, recria o procedimento dicionarístico de Le Parti pris des choses (1942) de Francis Ponge.

Incluído na coleção de plaquetes da Círculo de Poemas, dedicada em 2023 ao tema dos mapas, Sal de Fruta reúne quinze textos sobre quinze frutos (“Laranja”, “Banana”, “Figo”, “Caqui”, “Limão”, “Caju”, “Melão”, “Abacaxi”, “Coco”, “Cajá”, “Romã”, “Nêspera”, “Manga”, “Melancia”, “Maçã”) que partilham, à excepção da banana, contornos evidentemente arredondados e que, ordenados de modo estratégico, compõem o mapeamento individual, senão mesmo biográfico, de Bruna.


Bruna aproxima-se de Murilo por lidar comicamente com as particularidades do universal. Universal, aliás, em três pontos: para lá de conhecê-los e consumi-los, e cada uma de nós querer opinar, nada menos que apaixonadamente, sobre cada um deles, os frutos são uma das matérias mais carregadas, a nível simbólico, dos vastos e multilíngues globos literário e artístico. 


Trata-se, portanto, de um assunto no mínimo arriscado, ou melhor: de uma escolha manifestamente ambiciosa. E nesse sentido, apenas nesse sentido, mais ambiciosa do que a de Murilo que junta, à laranja e à melancia, a luva, o pão e o vinho, ou o fósforo — escapando, assim, à responsabilidade ingrata de escrever exclusivamente sobre o tema.


LARANJA

Tenho um traquejo absurdo com a laranja. Você precisa ver. [...] Sinto orgulho da laranja e das espirais que desembrulhamos juntas, como quem desfolha o bem-me-quer. [...] Das frutas, é minha única irmã, a do meio.


(Beber, 2023)


Sal de Fruta retoma o jogo morfológico de Poliedro. Ou: o título nomeia a coisa e o texto define-a. Mas, à semelhança de Poliedro, nada é o que parece. Trata-se de uma cilada. Em primeiro lugar, visual: leio “Laranja” e imagino, com toda a familiaridade, uma laranja para, logo depois, ler o poema em prosa que em nada se aproxima da clareza teoricamente subentendida da definição. 


A promessa nunca se cumpre. Estende-se, aliás, em alguns momentos, ao semanticamente inacessível (“Ela é a síntese do que reputo em fortuna: água e amarelo”, 5). Entendo e não entendo certas passagens. Recebo alegremente o que não entendo. E avanço, apesar de tudo, para perguntar, por um lado, quem está falando? — será outro fruto? Bruna ela mesma? —, e, por outro, encontrar no mecanismo da personificação que circunscreve o relato um ou mais motivos para rir. 


BANANA


[...] A força está com a banana. Até uma banana sozinha faz verão. Quem dá banana empresta a Deus. [...] Seu formato de vírgula não torna sua personalidade hesitante ou descansada, a banana tem peito de remador. [...] Já pensou como seria sua vida se você não fosse um banana?


      


Atribuir personalidades aos frutos faz-se, além disso, e como, por exemplo, no excerto acima, com recurso a expressões populares ou à sua adulteração (“LIMÃO// Se a vida te der, agradeça”, 10), à assertividade — não há realmente diferença entre as várias afirmações de Bruna e a unanimidade da máxima —, a uma variedade eclética de referências 

  1. cinematográficas, musicais ou carnavalescas (“Josephine [Baker], Carmen [Miranda], Velvet [Underground], Gracyanne Barbosa”. Não resta dúvida sobre a banana”; “o figo não dá mole pra [Theo] Kojak”, 8; “Roberto Carlos é a torta de abacaxi com ameixas”; “O coco é a música brasileira no cânone literomusical, um excelso complexado. Insigne o homem cantando a encantar”; “Uma manguinha me ensinou quase tudo que eu sei”);
  2. literárias (“Vou inventar mais um epíteto para o coco, o Cruz e Sousa das frutas”);
  3. astrológicas (“O melão irrita demais. É de Gémeos”);
  4. supersticiosas (“E assim [a romã] foi consagrada oráculo de caroços na carteira”);
  5. e culturais (Sou filha de um peido, pode perguntar pro Marquinho Pipoca”);

ou recorrendo, por último, ao erotismo latente do objeto, que Bruna alcança tanto pela anedota, narrando uma (“Caju”) e outra (“Maçã”) histórias falhadas de amor, quanto pelas qualidades naturalmente eróticas desta série de personagens carnosas. 


Já beijei a boca de tantas mangas. Toda manga é professora. Ensina latitude e o cuspe necessário para chegar ao Meridiano de Greenwich. [...] Com a boca na manga é possível conceber a materialidade da satisfação. [...] Beijo sua boca até a hora do jantar. 



Sal de Fruta não tem, além de tudo, começo ou fim e pode, por isso, expandir-se ao colecionar mais frutos — onde estão, afinal, o morango? O abacate? A cereja? — ou, na linha de Ponge e Murilo, quaisquer outros itens. E esse é justamente outro dos aspetos mais sugestivos deste pequeno grande livro condenado à agitação. 

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