RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 6: Lucas Litrento: Pretovírgula (Círculo de Poemas, 2023)
(intro)
não se trata de deixar a gira
nem de ser freio de roda
o sol não dança por acaso
antes o cálculo do improviso
a pausa breve
(Litrento, 2023)
Lucas começa por desenhar uma circunferência no espaço que é, simultaneamente, um aviso e o rascunho de uma lente cinematográfica. O aviso, de que nada, o poema ou a vida, se suspende por inteiro encaixa Pretovírgula tanto na “gira”, como um objeto móvel e volátil, quanto, pela possibilidade de interceptar o remoinho, na “pausa breve”. Já a lente, circular à maneira de todas as outras, irá focar-se, no segundo dos textos, em Dom Miguel que, além de falar para ela, descreve o terror causado em Maceió por
SANDRINHO!
parecia um indiozinho
às vezes saía do meio da mata
com um facão trançado
e uma navalha que brilhava
A câmera, que logo depois se move em “[zoom óptico x2]”, filma “o granulado juntando terra molhada” e interrompe a gravação nos “olhos de sandrinho” que são, acrescenta Dom Miguel, “de jaguatirica”. Play — Racionais Mc’s no soundtrack: o pesadelo do sistema não tem medo da morte. Sandrinho, “aquele que come primeiro”, “que matou a todos”, “que caiu e levantou três vezes”, existe no início e no fim do mundo e adianta, por essa razão, a voz anciã da página seguinte que, entre buzinas, úberes e motoboys, aprova o “machado singrado” do “herói dos pivete” e, de resto, o mais útil dos instrumentos para quem habita o vietcongue (“somos um ônibus lotado de pânico/ nossa garganta enfileirada é quente/ feito a soma da cor dos nossos filhos”).
E quem habita o vietcongue, a meio de uma guerra — “será que um dia [...] termina” — são os
pretovírgula
e preto era o vulgo do último nó, ou quem sabe
a sombra da partilha das rimas, preto era eu aos quinze
a vírgula presa nos dentes aparentava se quebrar
A vírgula, ela mesma um sol que dança, transforma-se muito rápido, como símbolo da suspensão e da infinidade, na expressão de resistência que perpassa o terceiro livro de Lucas (“achei na vírgula o único mapa/ desse trajeto empenado/ a única forma de alicerçar”); em que, aliás, quase não há, a marcar o ritmo das suas canções trap, pontos finais.
“Vulgo”, série de Pretovírgula que inclui os últimos sete versos que escolhi citar, assemelha-se, paralelamente e com Omeros (1990) de Derek Walcott ao fundo, a um pequeno poema épico ou “filme pirata sem ficha técnica”. Recicla, na verdade, a descida multiétnica proposta por Walcott — que une mitologicamente os mares grego e caribenho — ao conceber, sem opção, “um inferno de novo”. Coletivo (“herdamos a fúria que sem preço/ nos preenche”) e individual.
ÓCIOS DO OFÍCIO
ando com pre-
guiça disso tudo. com pre-
guiça de ser negro,
dessaprensa,
areia move-
diça disso tudo. com pre-
guiça e é só uma vírgula
que te peço.
só uma, katulô.
E não me surpreende que, para inventar um inferno, Lucas recrie, não sem um certo sarcasmo e declarada fadiga, os antigos. Há que pedir insolentemente a benção a, neste caso, Safo e Catulo que identifico, em primeiro lugar, pelas quebras em preguiça e movediça. Faz, com efeito, todo o sentido que guiça caia para o verso seguinte porque pier, a raiz de pre em latim, significa alguma coisa entre gordo e pesado. O que é pesado cai. Já a queda de diça acompanha sonoramente o corte anterior.
Algo semelhante acontece no fragmento 31 de Safo em que φωνεί-/ σας (sussurrar) e ἐπιρρόμ-/βεισι (retumbam) se repartem por quatro versos. Partilham, além de tudo, o som em σ (sigma). Sabemos, igualmente, que Catulo reescreve o fragmento 31 de Safo durante o Carmen 51 e o que o Carmen 51 diz a certo ponto: otium, Catulle, tibi molestum est (ócio, Catulo, eis o teu defeito).
Isto, junto à exuzação do nome Catulo, katulô, transforma o poema de Lucas na versão pragmática de um poema enamorado que, por não haver aqui e agora, deixou de o ser. Não há lugar ou hora para o amor.
Afinal, de “máscara/ desde a circuncisão” (52), carregando o “banzo [...] do berço”, o autor existe em conflito; mais precisamente “na decomposição eterna” do planeta “girando na mesma trilha de sangue”. E prepara-se, como “exu/ riscando outro caminho/ ao redor das bordas”, para o embate.
Ao reproduzir visualmente a não-linearidade do ditado Iorubá, Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje, a mão invisível do poema rabisca no infinito um enorme X ou, por outras palavras, a interseção programadamente acrónica do que arremessa com o arremessado. Nem completamente mau nem completamente bom. E a miscelânea ético-temporal, em que Lucas, “malandro sutil”, firma a sua ars poetica (“memória/ é tudo que canto”), cresce a partir da coincidência que encontro entre a forma curvada e pontiaguda da vírgula e o desenho orbicular da parte superior da máscara de Exu.
O óbvio: Lucas — que, a propósito, lê Pretovírgula disfarçado — e Exu usam máscara. O recorte do topo da máscara da divindade, bem como o delineamento da vírgula, casam com o formato redondo da crista do galo. O galo, que anuncia quer o início quer o fim, é um dos atributos de Exu.
Não tão óbvio: a potência do molde de resistência arquitetado por Lucas corresponde não só à inclusão da paisagem negra alagoana na vida literária brasileira, à ritualização ancestral do poema ou à reinvenção oral e performática do verbo, mas também, e sobretudo, à mutabilidade do todo.
Por exemplo: “se 6 fosse 9”, o décimo primeiro texto de Pretovírgula, divide-se em seis estrofes — de seis versos cada uma — e um terceto, que, não por acaso, se assemelha a uma vírgula, resulta da soma dos seis versos de cada uma das estrofes com o terceto. O que quer dizer, na minha leitura-exu, que o terceto pode, segundo uma lógica de variabilidade, somar-se a qualquer uma das seis estrofes para armar, pelo menos, seis sistemas novos. Encruzilhados, não-lineares, esféricos
que par não sendo junto é justa a quebra
e se houver ruído aqui não se desdobra
barqueiros sem bússola pretovírgula fantasma



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