FICÇÃO / TRADUÇÃO : "Contando em anos de cachorro", por J. A. Glasmacher (tradução de Ricardo Domeneck)
CONTANDO EM ANOS DE CACHORRO
Sou um Karakachan. Uma raça com a qual o mundo fez cachorrada. Nascida longe demais ao leste para ser classificada como uma raça civilizada, a classe que surgiu dos cães de pastoreio e caça nunca ouviu falar de nós. Mas somos puro-sangue, me chame portanto de vira-lata por sua conta e risco. No campo, sou superior a um Border Collie. Você deve estar se perguntando como eu sei disso? Meu professor é um homem culto de antanho. Suas aulas eram tão boas que, se houver o que pastorear, posso pastoreá-lo sozinho. Já faz algum tempo que saio de manhã e volto à noite sem ele ao meu lado. Meu professor passa os dias destilando álcool. Uma profissão para poetas de verdade.
Não há criadores propriamente ditos na Bulgária; pelo menos não formalmente. Não é preciso licença, apenas reputação que se espalhe no boca a boca. Fazendeiros, bêbados e fazendeiros bêbados nos reúnem, e nós fazemos o resto, procriando pelas ruas sem sermos incomodados. Ninguém mantém sobre nós qualquer vigilância. Reconhecendo o apito que nos chama para a labuta, respondemos a ele na hora e fazemos com prontidão o que se exige de nós. Assim, ficamos deitados pelas grades do canal, pelas grades das vendinhas de beira de estrada, e nos espreguiçamos ao som dos velhotes proseando até que alguém assobie à distância, e partimos.
Dessa forma, somos inteligentes como os Border Collies não são. Na verdade, eles são bem burros. Burros por ficarem em posição de sentido o dia todo. Que espécie de vida é essa? A vida de um recruta. Que animal idiota permaneceria em posição de sentido para trabalhar quando o trabalho já está feito? São raças modernas de colarinho branco e se assemelham aos jovens daqui. Homens apenas no nome. Homens que só latem e nunca mordem. Eles se castram a si mesmos com sua falta de ação. São as mulheres que realmente mantêm esta cidade funcionando. Au-au! Este país! Esta metade do continente! E os jovens negam isso categoricamente. Que homens são esses? Au-au! Nunca se prostre aos pés do seu dono é o lema desses mastins. Au-au, au-au!
Desculpem-me, continuo sendo um cachorro, mas um cachorro com coragem. Eu sou o macho-alfa da matilha, e o mesmo vale para meus compatriotas. Trabalhamos e comemos sem auxílio. Somos responsáveis por nossa própria prole. Genealogia é algo importante. Mesmo que a consideremos um fio apenas, de uma teia mundial tecida em tempos passados, sua relevância é inegável. Ela paira nas entradas de nossos focinhos e bocas. Cada vez que a vemos, ficamos surpresos e perplexos; como um mau hálito que paira em torno de lábios finos e bonitos. Isso não é um problema para mim, mas é para vocês. Meu focinho está enfiado em bundas todo santo dia. Para vocês isso é pejorativo. Por que, então, o hálito de vocês tem um cheiro pior do que o meu?
Nunca fui modelo, embora seja popular entre as moças da cidade. A espessura do meu pelo é legendária. — luxuosamente aveludado quando chega o inverno. Esse fato se espalha em fofocas a cada outono e a cada primavera, e assim a curva do meu pescoço se torna um travesseiro muito requisitado. Ainda assim, você não encontrará meu casaco em tela; na horizontal, em óleo, com as patas repousando sobre as botas de couro macio de senhores e senhoras, exploradores ou agremiados a guildas. Nós nem sequer merecemos uma pincelada em pinturas realistas. Durante a mania orientalista, nenhum artista ou escritor jamais parou por aqui. O Expresso do Oriente nunca passou por estas terras. Ele cruzou o Danúbio bem longe da nossa capital. Outras linhas passavam por países totalmente diferentes. Isso foi há muito tempo, muito tempo até mesmo para os padrões humanos. Mudança? Você acha que os tempos mudaram? Seria de se pensar que sim. Eu pensei assim por muito tempo, mas a mudança real é lenta, muitas vezes é adiada e, então, nos engana ao mudar apenas o tom, a textura e a cor.
Na semana passada, um ônibus de turistas parou no meu campo e dele saiu a Spaniel mais bonita. Felizmente, depois do almoço. Corri até lá com a melhor expressão de olhos inocentes, e à medida que me aproximava, apareceu o dono dela. Ele olhou para mim com nojo, cuspiu uma palavra na minha blusa de trabalho e puxou a coleira dela. Sou higiênico. Fico longe de fezes de vaca enquanto estou de plantão nos campos. Isso requer grande habilidade, focinho erguido, apontado como uma flecha em direção ao meu rebanho. Devo dizer que costumava ser assim, quando as vacas vinham dos campos e não de caminhões frigoríficos. O mesmo não se pode dizer do pobre dono da Spaniel. Sua língua trazia o cheiro de Benson & Hedges velho e um sotaque sutil. As mudanças de verdade são lentas. Se é que alguma vez ocorrem. São rápidas apenas quando contadas em anos de cachorro.
(Tradução de Ricardo Domeneck)
:
COUNTING IN DOG YEARS
I am a Karakachan. A breed done dirty. Born too far east to be classified a civilized breed, the class that emerged from herding and hunting dogs never heard of us. But we are thoroughbreds, so call me a mut at your own risk. In the field, I’m superior to a Border Collie. How do I know you ask? My teacher is a learned man from bygone days. So good were his lessons that when there is something to herd, I can herd it all alone. For a while now I leave in the morning and return in the evenings without him by side. My teacher spends his days brewing alcohol. A true poet's profession.
There are no breeders in Bulgaria per say; at least not formally. You need no licence, only a word-of-mouth reputation. Farmers, drunkards, and drunk farmers alike bring us together, and we do the rest, breeding undisturbed and purely on the streets. They keep no watchful eyes over us. Recognising the whistle to work, responding to it in the moment, and doing what is asked of us when it is asked of us. So, we are left to lay about the canal grills, the roadside kiosk grills, and laze about off listening to old men chat, until one whistles in the distance and we’re off. In this way we’re intelligent and a Border Collie is not. In fact, they’re rather stupid. Stupid to stand to attention all day. What sort of life is that? The life of
a conscript soldier. What foolish animal stands posed for work when work is complete.
Modern white collar breeds they are and resemble the young men around here. Men only in name. Men who only bark and never bite. They castrate themselves by their lack of action. It is the women who really keep this town running. Woof! This country! This half of the continent! And the young men deny this outright. What men they are. Woof! Never lie at the feet of your master is the motto of these hounds. Woof, woof!
Apologies, I remain a dog, but a dog with its bollocks. I am the dog’s bollocks, and so are my compatriots. We work and feed ourselves. Are responsible for our own offspring. Genealogy is an important thing. Even if we consider it a thread belonging to a world web woven in days gone by, its relevance is undeniable. It lurks around the entrances of our snouts and your mouths. Each time we see it we are surprised and taken aback; like a bad breath that lingers around fine, pretty lips. That isn’t a problem for me but is one for you. My snout is up arses day in, day out. But for you that’s pejorative. Why then does your breaths smell worse than mine?
I have never been a model, although I am popular with the ladies around town. My coat is infamously thick - luxuriously soft when winter makes it rounds. This fact echoes through the grapevines every autumn and every spring and makes the cradle of my neck a popular pillow. Still, you won’t find my coat on canvas; prone in oil, paws draped across the soft leather boots of lords and ladies, explorers or guild owners. We are not even worth a brush stroke on a realist painting. During the orientalist craze no artist or writer ever stopped here. The Orient Express never passed through these lands. It crossed the Danube far away from our capital. Other lines went through other countries entirely. That was long ago, long even for human years. Change? You think times have changed? One would think so. I thought so for ages, but real change is slow, is often held up, and then fools us by changing tone, texture, and colour.
Last week a tourist coach stopped by my field and from it emerged the most beautiful Spaniel. After lunch thankfully. I trotted over with the best impression of younger eyes, and as I came closer her owner came into view. He looked down on me in disgust, spat a word at my work coat and pulled her leash. I am hygienic. I steer clear of cow patties whilst on shift in the fields. It requires great skill, snout up, pointed like an arrow towards my flock. I should say used to, when the cows came from the fields and not cooler trucks. The same can’t be said of the poor Spaniel’s owner. His tongue carried the smell of stale Benson & Hedges and subdued dialect. Real change is slow. If it ever comes along. It’s only ever quick when counted in dog years.
.
.
.

Comentários
Postar um comentário