RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 2: Luiza Romão: Sangria (selo do burro, 2017)
Luiza Romão: Sangria (selo do burro, 2017)
Penso em Pau Brasil. O que, parcialmente, faz de Sangria a reciclagem feminista do livro de poemas paródicos mais conhecido do país. A começar pela capa: onde vejo, sobre a fotografia do ventre, sete lâminas alinhadas ao redor de um círculo bordado a vermelho. O desenho, que me remete, em primeiro lugar, para um moinho, cata-vento ou ventoinha de hastes afiadas que corta ininterruptamente a pele converte-se, quando volto a olhar os desenhos de Tarsila, em palmeira porque
- ao longo do livro, Tarsila insiste, com efeito, mais na representação visual da palmeira — que se trata, acrescentaria, da árvore mais literária entre as árvores ocidentais —, do que na representação de qualquer outro objeto.
- evidentemente, as formas de uma e outra coincidem.
Mas a palmeira de Luiza fere. São, aliás, as gotas de sangue que alargam o significado do título e dão a ver, por detrás da palmeira amolada, e no contexto de um país que, há um século atrás, terá produzido os seus poemas marcadamente anticoloniais, o ventre (menstruado ou não) que sangra.
Ainda que o princípio colaborativo de Pau Brasil se repita — para uma série de poemas, uma série de imagens; e vice-versa —, a narração da História não honra, em ponto algum, a ordem e a comicidade da paródia das navegações cunhada em 1925 por Oswald. Pelo contrário: expande-a ao subverter a perspectiva falocêntrica nacional e ao interromper, por consequência, a rasura das mulheres como personagens, intervenientes e vítimas, mas não por isso reduzíveis a vítimas, da
palavra-mercadoria
brasil
PAU-BRASIL
o pau-branco hegemônico
enfiado à torto e à direito
suposto direito
de violar mulheres
o pau-a-pique
o pau-de-arara
o pau-de-araque
o pau-de-sebo
o pau-de-selfie
o pau-de-fogo
o pau-de-fita
O PAU
face e orgulho nacional
A COLONIZAÇÃO COMEÇOU PELO ÚTERO
matas virgens
virgens mortas
A COLONIZAÇÃO FOI UM ESTUPRO
(Romão, 2017: s/p)
Além do mais: o que afasta tematicamente Oswald e Luiza é o que, a nível formal, os aproxima. De facto, a cesura do verso em Sangria poderia trazer de volta as críticas assinadas por vários intelectuais brasileiros à cesura do verso de Pau Brasil que, ao identificarem, porém sem entendê-la, a afronta do projeto oswaldiano, constatam, entre outros reparos, a anulação de “todo esforço poético” (Athayde apud Boaventura 1995: 114). A validade de tais críticas dependeria, porém, do quanto não aprendemos, em primeiro lugar, com Oswald e, em segundo lugar, do desconhecimento, a este ponto reprovável, da cada vez mais comum expansão oral, performática e até musical do poema brasileiro do século XXI.
Penso, depois, no já mencionado Álbum de Pagu. Nascimento Vida Paixão e Morte. O que, também parcialmente, faz de Sangria a extensão coletiva da dimensão autobiográfica do pequeno livro, sem antecedentes, de Patrícia Galvão. Se as quatro partes (Nascimento – Vida – Paixão – Morte) de Álbum correspondem aos quatro eventos mais relevantes da vida de Patrícia Galvão, e se para cada texto há um desenho da autora, as seis partes de Sangria (Genealogia — Descobrimento — Tensão pré-menstrual — Corte — Ovulação — Menstruação) dizem, por sua vez, respeito a seis dos eventos mais relevantes da vida das mulheres brasileiras e latino-americanas em que, analogamente, há, para cada poema, uma fotografia de Sérgio Silva.
Ambas, Patrícia e Luiza, escolhem representar-se visual e irreverentemente nuas. E a proposta de Luiza, cujo registo fotográfico se assemelha, no contraste e na textura, ao corpo xerografado de Hudinilson Jr., cabe, de resto, no programa estético das suas predecessoras. Lygia Pape (O ovo, 1967), Lygia Clark (Arquiteturas Biológicas. Ovo Mortalha, 1968), Letícia Parente (Preparação I, 1975; Marca Registrada, 1975), Anna Maria Maiolino (Por um Fio, 1976), Marie Orensanz (Limitada, 1978), Anna Bella Geiger (“O pão nosso de cada dia”, 1978), Helena Almeida (Ouve-me, 1979), Martha Araújo (Para um Corpo de Desejos Adormecidos, 1986), Lenora de Barros (Wanted [by Myself], 2001; Estudo para Facadas, 2012) ou Rosana Paulino (Bastidores, 1997) são alguns dos nomes que me ocorrem porque
- intervém, a nível político, sobre o próprio corpo;
- a intervenção sobre o corpo simula, na maioria dos casos, um ou mais atos de violência contra a mulher ou mulheres em questão (Parente; Orensanz; Almeida; Barros; Paulino);
- a deturpação das práticas da costura ou do bordado, que constam entre as múltiplas tarefas domésticas a serem exercidas pelas mulheres no universo patriarcal, aparece e reaparece ao longo das carreiras de várias delas — para coser o pé (Parente), unir gerações de mulheres (Maiolino) ou silenciá-las por completo (Almeida; Paulino);
- lhes interessa, à semelhança de Luiza na segunda das fotografias de Sangria, a coincidência entre corpo, coletivo e ventre (Clark; Pape; Araújo) e a devoração, literal (Geiger) ou ótica — o corpo de Luiza tem o tamanho do Brasil —, do mapa.
Penso, finalmente, em “Cut” (1962) de Sylvia Plath, Rosa Sangrenta (1975) de Maria Teresa Horta, “Tampons” (1980) de Ellen Bass, “Menstruation at Forty” (1981) de Anne Sexton, The Vagina Monologues (1996) de Eve Ensler, “Ode on Periods” (1998) de Bernadette Mayer, “A menstruação” (2000) de Adília Lopes ou n’A Menstruação de Valter Hugo Mãe (2017) de Carla Diacov que desenha, aliás, com sangue menstrual (2022: s/p), para concluir que, entre os livros de poemas publicados recentemente em língua portuguesa, o útero-bomba de Sangria, outro “punho” cerrado (Freitas 2017: 59), se destaca por duas razões.
Mais do que perceber a organização do livro de Luiza em vista dos ciclos do “café ouro borracha/ ciclos dentro e fora de mim” (Romão 2017: s/p) e, claro, dos vinte e oito dias do ciclo menstrual, alinhados à direita sobre o início de cada poema, falta assinalar que a coincidência perfeita e estratégica entre forma (calendário) e conteúdo (fases da socialização do corpo da mulher desenvolvidas a partir da masturbação, do estupro ou da menstruação) explica o quão verossimilmente material é o útero que revisita, não a História do Brasil, mas as histórias dos corpos colonizados das mulheres que compõem, até há pouco invisivelmente, a grande e adulterada História da nação.
Associo, também, a última secção de Sangria, dedicada ao tema da menstruação, cujo sangue perpassa, em forma de linha, todo o volume, à limpeza do corpo que, mensalmente, se renova com o fim de preparar-se para o estágio seguinte da fertilidade ou, metaforicamente, à queda do patriarcado porque, afinal,
se caiu as torres gémeas
a ditadura, o muro de berlim
porque não haveria de cair
esse maldito sistema
(Romão, 2017: s/p)

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