RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 3: Leonardo Gandolfi: Robinson Crusoé e seus Amigos (Editora 34, 2021)

7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 3: Leonardo Gandolfi: Robinson Crusoé e seus Amigos (Editora 34, 2021)




Há dois versos que assombram contextualmente o quarto livro de poemas de Leonardo: “E eu não sabia que minha história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé” (Andrade, 2013: 13). Não só porque o incluem na fileira de poemas brasileiros alusivos ao texto de Daniel Defoe, mas porque entreveem, junto à alteração gráfica da gravura de Gustave Doré, a heterogeneidade atemporal e bibliográfica do projeto.   


A gravura de Doré é conhecida. Ilustra o momento em que, no poema de Ariosto, um grupo de criaturas monstruosas força exitosamente Ruggiero a entrar na cidade de Alcina (VI: LX-LXXII). E entrar na ilha mágica significa que, esquecido da amada Bradamante, Ruggiero apaixonar-se-á perdidamente, durante os próximos dois Cantos, pela feiticeira. 


A configuração deste imbróglio amoroso também é conhecida. Assim como Ruggiero, Ulisses, esquecido de Penélope, já caíra, muito antes, nas artimanhas da sedutora Calipso e nos regalos sobre-humanos da ilha de Ogígia (Od. I).


Ambos os episódios, predecessores d’A Ilha [camoniana] dos Amores (Lus. IX) ou, indiretamente, da ilha deserta de Robinson Crusoe (1719), encaixam Robinson Crusoé e seus Amigos na longa e interminável sequência de poemas épicos ou romances de aventura: “Tudo vai bem com/ Robinson Crusoé e seus amigos// Acontece que logo adiante/ esses cavaleiros/ são cercados por cento e dez lobos famintos// Isso mesmo/ cento e dez lobos famintos” (Gandolfi, 2021: 57).


O encaixe está, contudo, longe de ser perfeito e a possibilidade do amor desaba, por exemplo, antes de começar: “Sou eu quem primeiro/ se dirige a ela/ vim de muito longe atrás de você/ ao que a moça responde/ então você veio/ de muito longe à toa” (75). São as figuras coloridas (ou fechaduras coloridas?) dispostas sobre a ilustração de Doré que, ao omitir graficamente o que sabemos estar lá, dão, por um lado, a ver os gigantes que antecedem Leonardo e, por outro, me dizem que a “ferida aberta” (29), motor criativo dos poemas de Robinson Crusoé e seus Amigos, talvez desiluda o leitor assíduo de aventuras; porque escrever corresponde agora a descer voluntariamente, “quer dizer cai[r]” (93), do Parnaso ou a perder intencionalmente a auréola.


Minha avó

trabalha na casa

de uma das irmãs

de Clarice Lispector


Minha mãe

ainda jovem

frequenta o lugar

e como adora livros

é convidada

por Clarice a cuidar

da sua biblioteca

uma vez por semana


                         (idem: 11)


Aliás: nunca houve Parnaso nem auréola. Trata-se, sobretudo, de uma questão de classe; de registar as histórias dos fantasmas que não fizeram poemas (“Depois que minha mãe/ limpa os livros com flanela/ [...] Clarice entrega a ela/ com o punho cerrado/ algumas notas e diz// isto aqui Rita é para os seus supérfluos”, 11), de reconhecer a ironia que há na diferença (“Da minha parte/ anotar todas as vezes/ em que a palavra/ supérfluo/ aparece nos livros/ de Clarice/ e fazer um inventário”, 14), de perguntar o que incomoda (“adivinha quem/ vai recolher/ toda essa sujeira?”, 20) ou de repescar os detalhes que passaram incólumes até aqui 


(No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala — e nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha


                                                    Andrade, 2013:13)


com o propósito de fazer do livro “(o nosso coração)/ dizendo ‘eu’ entre nós e nós” (Pina, 2012: 357) e de olhar, então, afetuosamente para 


Minha avó 

[que] servia café 

dentro do poema 

dos outros


Agora 

ela está 

sentada aqui


 A cada gole

 assoprando

 a sua pequena

 caneca de metal 


(55)


O que significa, ao mesmo tempo, oferecer — enquanto há tempo — a memória dos antepassados às que chegaram depois: “[...] alguém disse/ que à noite/ todos os poemas são cinza// Nem todos/ tanto que chegou a hora/ de dedicar este/ a Rosa” (15). E, no caso específico de Robinson Crusoé e seus Amigos, apostar mais na vassoura do que na caneta. A vassoura, porque a simplicidade dos poemas de Leonardo me lembra a simplicidade dos poemas de Ron Padgett (“A caneta é mais poderosa do que a espada/ mas [...] a vassoura/ é mais poderosa do que a caneta”), porque os dois varrem a sujeira para debaixo do tapete e porque a sujeira é o que mais importa. 


Lê-los implica catá-la.


De facto, vários poemas de ambos poderiam render, pela multiplicidade e diversidade de ideias que concentram, muitas vezes pitorescamente e quase sempre de modo coloquial, uma miscelânea de conversas, reflexões ou ensaios. Como, por exemplo, “Minhas férias”, “Variações Cronenberg”, “Duas histórias” ou o anedótico “Sim”, que, a rimar “Sim” e “Fim”, fecha o volume.


SIM


Feliz

da vida

meu amigo Márcio

contou que seu filho

vai nascer

em fins de junho

Brindamos

e um tempo depois

já tinha chegado a hora

da saideira

Foi quando ele disse

que o quadro

A Origem do Mundo

de Courbet

antes de ir para o museu 

tinha pertencido

a ninguém menos que

Jacques Lacan

Fim


              (111)


Título + dezanove versos = dezanove cortes. Vinte paragens. Duas estórias. Ficcional ou não, a primeira enternece-me. A segunda, que corresponde à realidade, faz-me rir. Conheço A Origem do Mundo, Jacques Lacan e as controvérsias que envolvem um e outro. E rio, antes de tudo, porque o que mais me incomoda nos seminários lacanianos, sobretudo nos que apresentou em Paris entre 1953 e 1954, diz precisamente respeito à dimensão falocêntrica dos ajustes feitos pelo autor à proposta freudiana da diferença sexual. 


O riso estende-se também a isto: quando esteve na casa de Lacan, A Origem do Mundo, pintada em 1866 por Gustave Courbet e seguramente uma das obras mais polémicas da história da pintura europeia — feminista ou objetificante?  — foi, a pedido de Sylvia Bataille, coberta por um quadro em madeira de André Masson. Continuo sorrindo: independentemente de olharmos ou não A Origem do Mundo desde uma perspetiva de empoderamento feminino, o útero compôs, em termos literais, o cenário doméstico de fundo das cogitações lacanianas para ser depois resgatado por Julia Kristeva, Elizabeth Grosz, Judith Butler, Luce Irigaray ou Jane Gallop.


A mais irónica das presenças ausentes?

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