RESENHA: 7 livros de poemas para o século XXII, por Patrícia Lino - Parte 4: Laura Assis: Parkour (Macondo, 2022)




São os últimos versos de “Ithaka” (1911) que vêm, de repente, à cabeça quando termino de reler Parkour: “[...] se a achares pouco, Ítaca não te terá enganado./ De tão sábio que és agora, com tanta experiência/ já deverás ter entendido o que significam as Ítacas”. E com eles a lição de Cavafy: o destino não importa tanto quanto a viagem.

Ou percurso, que seria a tradução mais rigorosa do título. Sei, além disso, que o valor do percurso se mede, mais do que pela natureza do sacrifício ou contratempo, pelo talento do herói em esquivar-se ardilosamente dos obstáculos. Impossível não pensar, por sua vez, no desporto homónimo — apesar de isto pouco me interessar — e, ao mesmo tempo, no processo de dessacralização épica proposta por Laura. 

Esta nova, mas ainda circular, Ítaca (“Onde nunca se imagina a saída/ é justamente o lugar em que ela está:// na entrada”), um quarto escuro onde, desamparada, Laura não alcança “o interruptor” e “vislumbra [...] móveis e mágoas” e, em contrapartida, “Perséfone/ [desce as]/ escadas” materializa o que “só bem mais tarde elas entenderiam” (2022: 7); o corpo e o significado das especificidades identitárias do corpo, agrupadas e conectadas em três, no espaço. 

A catábase de Perséfone, que, sem opção e contra a sua vontade, se encaminha decerto para Hades no contexto de um acordo duvidoso entre Zeus, Deméter e o próprio deus dos Infernos, apresenta — como a releitura brasileira de Averno (2006) de Louise Glück? —, a primeira delas.

A mulher; que, página seguinte, gosta de mulheres (“Em que língua falar com a estranha/ que se afogava todo dia/ no teu peito?”) e que, página seguinte, é negra (“A própria pele é impedimento/ para soltar o corpo no espaço/ [...]// uma menina no mundo inimigo”). E para quem, à semelhança das dificuldades fintadas engenhosamente por Ulisses durante a “viagem/ que não escolheu fazer” (73), O Mito de Sísifo (1942) parece fazer sentido: “Albert Camus diz/ que só existe [...] um problema realmente sério/ que a filosofia precisa responder:/ se vida vale ou não vale a pena/ ser vivida” (55). 

No lugar de respostas, Parkour oferece, porém, o silêncio e o conforto de, tal como o coloca Warsan Shire em vários dos poemas que Laura traduziu para o português (2022), existir completamente só no mundo — ou na página em branco.


ENTROPIA


você se lembra da primeira vez

que contou sua história e soube

dali pra frente a resposta

do mundo seria:


                                         (38)


Atribui, ainda, de modo inusitado e, como tudo em Parkour, sugestivo a última das recomendações de Camus (“Há que imaginar Sísifo feliz”) à casualidade. O Mito de Sísifo “foi presente de uma ex-namorada [...] que só/ me achava bonita quando eu estava muito séria” (56) e lido “pela primeira vez/ no mesmo ano em que me mudei para um apartamento/ que ficava muito distante do percurso do trem” (55). O que significa, por conseguinte, fugir dos “casos de atropelamento nos trilhos do trem/ [que] quase nunca são propriamente acidentes” (57). Sorte rebatida, logo depois, pela ironia cataclísmica que assombra os felizes.


Albert Camus estava no sul de França, onde tinha passado férias, e pretendia retornar a Paris de trem. [...] Seu editor insistiu para que ele aceitasse uma carona. Ele aceitou. [...] O carro se espatifou contra uma árvore [...]. Camus morreu na hora. [...] Em um dos seus bolsos, a passagem do trem que ele desistiu de pegar (59).


Não se trata, aliás, Parkour de um rebatimento sobre o outro? Uma coisa que nunca chega a ser para virar, de imediato, outra? Em que todos os poemas de amor são, por exemplo, invalidados por haver tantos “versos/ que agora escrevo” que “não cabem/ em um poema/ de amor” (35) e porque essencialmente, acima de feliz, há que imaginar Sísifo vivo (22). Carregando o pedregulho e, em simultâneo, driblando as adversidades com “o incêndio/ nos olhos/ e um plano/ nas mãos” (48). 

Sísifo deixou de ser, além disso, Sísifo. Como seria, pergunto-me, o Sísifo do (tentativamente mais inclusivo) século XXI? E Parkour responde: “Nunca estou sozinha nos corredores/ de lojas e supermercados;/ isso poderia ser uma história de amor,/ mas é exatamente o contrário” (15).

Não se trata, quero dizer, Parkour do livro que, incluindo os de literatura romântica, precede todos os outros? Por assentar, “atravessando a ponte/ para lugar nenhum” (72), na reivindicação do direito ao absurdo


(preciso te contar a história da baleia que há cinco 

dias carrega o filhote morto e dos momentos em que ela 

mergulha pegando impulso para jogar o corpo inerte 

mais uma vez no ar


    40)


e, paralelamente, no nem sempre garantido direito à sobrevivência. No que há, por outras palavras, a ser entendido antes da categorização do texto — se é ou não, exemplificando, trágico — e depois da identidade de quem o faz (“a bisavó limpava o chão/ que os homens brancos sujavam”, 49); do que, na prática, ela condensa e prevê (“e talvez por isso/ pense/ o tempo todo/ o tempo todo/ o tempo todo/ em espalhar pelo chão/ os estilhaços/ de toda e qualquer vidraça/ à primeira luz/ da revolução”, 50).

Enquanto a vida passa, 


como tudo passa


                     (71)

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